quarta-feira, 28 de julho de 2010

As eleições estudantis da UnB

Nos dias 10 e 11 de agosto, a Universidade de Brasília será palco das eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e para Representantes Discentes (RDs) para o Conselho Universitário (CONSUNI), o Conselho de Administração (CAD) e o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE). Existem cinco chapas concorrendo ao pleito: Amanhã Vai Ser Maior (chapa 1), Unidade Estudantil Classista (chapa 2), Quem Sabe Faz a Hora (chapa 3), AJR - Reconstruir o DCE pela Base (chapa 4) e Aliança pela Liberdade (chapa 5, que concorre somente para RD).


Ontem, aconteceu, com quase uma hora de atraso (estava marcado para as 18h00), o primeiro debate entre as chapas. O local do debate foi o Anfiteatro 11, no ICC, campus Darcy Ribeiro. O nível do debate foi, no geral, bastante fraco. Poucas foram as chapas que mostraram realmente a que vieram, com destaque para as chapas 1 e 5. A chapa 3 focou seu discurso em atacar a atual gestão, relembrando o "glorioso" movimento de ocupação da reitoria, em 2008, cujo estopim foi o escândalo Timothy. As chapas 2 e 4 fizeram o que sabem fazer melhor: esbravejaram contra os "burgueses reacionários" em mensagens abundantes de raiva e ausentes do mínimo bom-senso. A defesa (ou ausência) de propostas sólidas foi bastante significativa para se verificar quais chapas estão realmente empenhadas na construção de um projeto, seja ele qual for.

Em virtude disso, gostaríamos de incrementar o debate apresentando um perfil geral das chapas.


Nome: Amanhã Vai Ser Maior - Chapa 1
É vinculada a algum partido ou grupo externo? Sim: PT.
Principais propostas:
- "O que você tem aí?", projeto cultural que visa a divulgação da produção cultural dos estudantes da UnB;
- Criação da Revista Acadêmica dos Estudantes da UnB;
- Revitalização do Centro Olímpico;
- RU em todos os campi.
Análise: Representa pouco mais do que a continuidade da atual gestão do DCE, que, a bem da verdade, não atuou da maneira esperada em defesa dos estudantes. Ao que se sabe, o DCE atual não buscou medidas efetivas para cobrar, por exemplo, a conclusão dos campi ou a melhoria das condições de segurança da UnB. A cara pode ser diferente, mas a alma é a mesma.


Nome: Unidade Estudantil Classista - Chapa 2
É vinculada a algum partido ou grupo externo? Sim: Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC), União Popular Anarquista (UNIPA).
Principais propostas:
- Acesso livre à universidade, com abolição do vestibular e do ENEM;
- Abolição das fundações de financiamento;
- Abolição do ensino à distância;
- Abolição das empresas-juniores;
- Abolição das PPPs.
Análise: O bolchevismo estudantil de araque está mais vivo do que nunca. Somente isso seria motivo suficiente não somente para não votar nessa chapa, mas para fazer campanha contra. Colocamos dois motivos adicionais: (1) a implosão da reunião do CEPE no dia 13 de maio desse ano; (2) depredação do patrimônio público na UnB através de pichações (Pavilhão João Calmon, Faculdade de Educação, Faculdade de Tecnologia) feitas pelos grupos que formaram a chapa.


Nome: Quem Sabe Faz a Hora - Chapa 3
É vinculada a algum partido ou grupo externo? Sim: PSTU e PSOL.
Principais propostas:
- Retomar as lutas simbolizadas pela invasão da reitoria em 2008.
Análise: A chapa 3 parece um museu: vive de passado. Seu argumento central é o de que as lutas estudantis que culminaram com a saída do reitor Timothy Mulholland foram esquecidas, e que é necessário retomá-las. Entretanto, a chapa não fez ainda uma exposição precisa acerca de que lutas são essas. Um fato bastante desabonador foi a participação dessa chapa na baderna da implosão da reunião do CEPE, que também teve participação da chapa 2. Outro fato que também fala contra a chapa foi algo que aconteceu nessa segunda-feira: um dos alunos que está participando do abaixo-assinado por mais segurança na UnB ouviu claramente ser chamado de reacionário por um dos integrantes da chapa. Lutar por mais segurança para todos na UnB é sinônimo de reacionário? É um ponto de vista bastante singular, para dizer o mínimo.


Nome: AJR - Reconstruir o DCE pela Base - Chapa 4
É vinculada a algum partido ou grupo externo? Sim: PCO.
Principais propostas:
- Abolição das empresas-juniores;
- Abolição das fundações de financiamento;
- Passe livre para estudantes e desempregados (?!);
- Abolição das festas pagas promovidas pelos CAs;
- Controle da universidade pelos estudantes.
Análise: Ostenta basicamente o mesmo discurso da chapa 2, o mesmo velho palavrório esgarçado dos pretensos bolcheviques universitários. A chapa é apenas uma seção da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), do PCO, que quer meter o bedelho no movimento estudantil.


Nome: Aliança pela Liberdade - Chapa 5
É vinculada a algum partido ou grupo externo? Não.
Principais propostas:
- Aumento do policiamento no campus;
- Apoio às fundações de fomento;
- Aumento das concessões para prestadores de serviços (lanchonetes, copiadoras, livrarias, etc.) dentro da UnB;
- Instalação de rede wi-fi gratuita;
- Efetividade e transparência dos gastos da UnB;
- Ingresso da BCE no CONSUNI.
Análise: A não-dependência de nenhum partido político ou grupo externo da universidade é um ponto extremamente positivo, pois garante a autonomia do grupo e a isenção na luta pelas demandas dos estudantes. A criação de um assento para a BCE dentro do CONSUNI é uma bandeira que nenhuma das outras chapas levantou, e que é bastante relevante no contexto da universidade. É a única chapa que defende abertamente a presença de mais policiamento na UnB como uma das medidas para efetiva segurança da comunidade acadêmica.


Não queremos que a cúpula do movimento estudantil permaneça inerte como está. Também não acreditamos que pessoas que vivem de passado consigam enxergar de maneira adequada os desafios do presente e do futuro. E, muito menos, desejamos que grupos extremistas, que recorrem a práticas antiéticas (e, muitas vezes, ilegais) de luta se encastelem nas estruturas institucionais do movimento estudantil. Queremos alunos conscientes dos problemas da universidade, que conheçam a instituição e suas deficiências, que defendam de fato a pluralidade de pensamentos e a democracia universitária, como representantes. É por isso que nos posicionamos em favor da Aliança pela Liberdade - Chapa 5.


Próximo post: Militância, revolução e criminalidade na UnB

sábado, 24 de julho de 2010

O descalabro da segurança na UnB

Todo mundo sabe que a Universidade de Brasília não é um lugar seguro. A Reitoria é a primeira a admitir, o DCE fica "cobrando" melhorias, e o tema já foi, inclusive, abordado por uma pesquisa de alunos do Instituto de Psicologia da universidade.

Reproduzimos abaixo o testemunho de uma das vítimas da falta de segurança da UnB. Seu nome é Marina. O texto não foi preparado para nosso blog, mas estamos divulgando-o por se tratar de uma questão de interesse coletivo.

Primeiramente, deixo claro que a minha intenção com esse texto não é dar visibilidade a mim ou vangloriar-me do que fiz durante o momento que relatarei em seguida. Friso que já recebi todas as broncas possíveis de policiais e amigos quanto à minha decisão, que não foi em momento algum proteger meu patrimônio, mas sim minha vida. Utilizo desse espaço, cedido por amigos, para deixar de ser somente mais uma nas estatísticas de violência na UnB para me tornar um agente de alerta e passar uma lição.

No dia 16 de julho de 2010, às 17h15, dirigia-me ao meu carro, que estava estacionado na Faculdade de Estudos Sociais Aplicados (FA). Coloquei meu notebook e bolsa no banco de trás e, quando estava sentada para fechar a porta e dar partida, fui abordada por dois garotos, que acredito serem menores de idade. Um deles estava armado e me mandou ir para o banco de trás, ou ele me daria um tiro. O outro parecia bastante nervoso e não atendeu ao comando de me empurrar para dentro. Levantei-me e não me lembro se minha intenção era tentar correr ou entrar no carro, mas acabei de frente ao garoto armado, que estava com a arma rente ao corpo. Consegui agarrar o braço que ele segurava o revólver, apontá-lo para baixo e gritar por socorro. Ambos saíram correndo, ao passo que também corri abaixada para trás dos carros que estavam ao lado do meu. Ouvi um tiro que acredito ter sido acidental e voltei ao prédio da FA para pedir ajuda.

A segurança da UnB foi bastante solícita ao anotar as características dos sujeitos e me encaminhar para a delegacia, onde eu prestaria ocorrência. Porém, uma amiga teve que emprestar o celular ao porteiro do prédio para que ele acionasse a segurança, uma vez que, naquele dia, ele não possuía nem ao menos um rádio. A PM chegou depois e fez uma varredura no campus, mas àquela hora os bandidos já estavam longe.

Sofri um ato de violência no mesmo estacionamento onde, há alguns meses, uma aluna foi seqüestrada. Na mesma Universidade onde, há pouco tempo, outra aluna foi estuprada, onde vários carros são arrombados e onde o patrimônio é recorrentemente furtado. Muito se discute sobre o policiamento do campus, sobre as políticas de segurança da UnB e, a meu ver, o diálogo se perde por aí. Não há negociação e o embate coloca tudo a perder. Não acredito que seja essa produção que a Universidade se proponha a oferecer. Seria a solução um policiamento diferenciado? Uma segurança particular da UnB? Há muito tempo que se colocam idéias, poucas se efetivam e o problema vai crescendo. Falar e discordar é fácil; ouvir que qualquer movimento brusco pode render um “tiro na cara”, como aconteceu comigo, não.

Há muitas coisas vergonhosas nessa história: a Reitoria não faz absolutamente nada para mehorar a segurança da comunidade acadêmica; o DCE é muito bom para falar, falar e fala um pouco maisr, mas, na hora da ação, faz eco à leniência paquidérmica da Reitoria e nada faz; a Secom, o órgão de propaganda oficial da Reitoria, sequer dignou-se a noticiar o ocorrido (podem entrar no Portal da UnB e pesquisar sobre o fato). No dia 19 de março, quatro dias após uma estudante ser estuprada nas imediações da universidade, representantes da UnB e GDF fizeram uma reunião para discutir as questões de segurança. Alguma coisa foi feita nos últimos 4 meses para cuidar disso? Não.

Se ficarmos de braços cruzados esperando que essa situação se prolongue, estaremos perdidos. Nada será feito até alguém morrer dentro da UnB em virtude da falta de segurança. Portanto, estamos auxiliando no recolhimento de assinaturas para um abaixo-assinado que visa à confecção de um documento com exigências de medidas de segurança. O documento, quando pronto, será encaminhado para a Reitoria e a Secretaria de Segurança Pública.

Se você quiser ajudar a recolher assinaturas, basta fazer o download do arquivo clicando aqui. As assinaturas podem ser entregues no CA de Administração, ou ao contato Felipe de Oliveira (cujo e-mail é felipe.pnoi@gmail.com).

Próximo post: As eleições estudantis da UnB.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A aula como instrumento de doutrinação ideológica

Quinta-feira, 15 de julho de 2010, 19h00. Local: Pavilhão João Calmon. É hora da aula de Teoria Geral de Empreendimentos 2 (TGE-2; na prática, a disciplina deveria se chamar Macroeconomia Aplicada à Administração). A professora, do Departamento de Administração, divide a turma em grupos após tecer rápidas considerações sobre o mercado monetário e distribui cópia de um texto para cada grupo. O objetivo da atividade é responder a sete questões sobre o material distribuído. O texto é um resumo de um artigo intitulado "A independência do Banco Central em debate", de autoria do economista Jorge Alano Silveira Garagorry (o artigo original pode ser acessado aqui).
O assunto é bastante polêmico. Do ponto de vista normativo, não há consenso sobre a viabilidade e as vantagens (e desvantagens) ensejadas pela autonomia do BC. O tema sempre gera discussões acaloradas, e o que não falta são defensores e detratores da autonomia. O texto se encaixa inteiramente no segundo grupo, o daqueles que são veementemente contra a autonomia do BC. Até aí, tudo bem - cada um tem o direito de defender o que acha melhor.
Entretanto, quando se examina os argumentos do autor, sua credibilidade acadêmica cai por terra. O que se vê não é um raciocínio científico embasado em argumentos técnicos, mas um desfile de sofismas de caráter marxista com uma precária roupagem contemporânea. Abaixo, apresento alguns dos pontos-chave do texto (os trechos em negrito são grifos nossos):
‘Mensalmente o COPOM se reúne para decidir o que fazer com a taxa de juros. Porém, antes da reunião, o BC consulta “o mercado” – leia-se os economistas-chefes dos maiores bancos – a respeito de suas expectativas quanto ao comportamento futuro das principais variáveis macroeconômicas da economia brasileira (tais como: inflação futura ; crescimento esperado do PIB, comportamento do Balanço de Pagamentos, etc.). Estas expectativas, ao serem consolidadas pelo BC, são tratadas como se tivessem uma origem pulverizada, isto é, como se tais opiniões fossem independentes entre si. De posse dessas estimativas o COPOM, por meio de um modelo econométrico conhecido pelos economistas-chefes, acaba “decidindo” qual taxa de juros nominal é compatível com as metas de inflação e com as expectativas do “mercado”. No final sai uma ata da reunião que fundamenta tecnicamente a decisão tomada em relação aos juros. Aparentemente uma simples decisão lógica e técnica...
Essa decisão “técnica”, na realidade, esconde um jogo de cartas marcadas ou “jogo de compadres”. O BC consulta os principais interessados na manutenção da maior taxa de juros suportável politicamente. Tais representantes do “mercado” representam os próprios detentores dos títulos da dívida pública, os quais serão remunerados pela taxa de juros em questão. Logo, está em discussão quanto os detentores dos títulos da dívida pública vão receber de renda. Não é de se estranhar que o BC tenha sido tão ágil para elevar abruptamente a taxa de juros no final de 2002 e seja tão gradualista na hora de reduzi-la, embora continue consultando as expectativas dos mesmos economistas de bancos.
Ora, é como se, mensalmente, os patrões consultassem seus empregados quanto ao salário que eles querem receber! Os empregados só teriam que tomar o cuidado de não quebrar o patrão. Se, por acaso, eles percebessem que o patrão estava com uma dívida crescente, para poder pagar-lhes cada vez maiores salários, deveriam recomendar que o patrão cortasse seus gastos pessoais, isto é, efetuasse reformas em seu orçamento; que mudasse seu estilo de vida, etc.
[...]
‘Não é por acaso que vemos o BC sendo ocupado por legítimos representantes do capital financeiro internacional. Esse fenômeno está inserido na lógica da chamada “globalização da economia”. Como nos ensina François Chesnais (2001), por trás dessa expressão, aparentemente neutra, “esconde-se um modo específico de funcionamento e de dominação política e social do capitalismo” (2001: 7). Ele refere-se ao fato de que o comando do movimento da acumulação, na atualidade, encontra-se nas mãos das instituições integrantes do capital financeiro internacional. Tais instituições, caracterizadas como rentistas, comandam a repartição da renda e o ritmo do investimento produtivo, consequentemente, o nível de emprego, por meio da posse de ativos patrimoniais e de diversos tipos de operações realizadas nos mercados financeiros.
O contexto da discussão sobre independência do BC deve ter claro que vivemos um momento em que o mundo financeiro se afirma como uma força autônoma, capaz de pôr em cheque governos, arruinar determinadas economias nacionais de um dia para outro e redirecionar a riqueza mundial, tanto entre nações como entre setores econômicos.
[...]
‘Somente para ilustrar, mencione-se que, quando o BC eleva a taxa de juros, ele provoca uma série de transferências de riqueza: do setor produtivo para o setor financeiro; do orçamento público para os aplicadores em títulos da dívida; dos tomadores de empréstimos para os bancos; e assim por diante. Sua atuação na política cambial também provoca redistribuição da riqueza. Uma desvalorização cambial altera o poder de compra de todos os brasileiros em relação ao resto do mundo; eleva os lucros dos setores exportadores e eleva os custos dos setores importadores; eleva os preços internos, reduzindo salário real; eleva a dívida das empresas tomadoras de empréstimos em moeda estrangeira; eleva a dívida pública, já que uma boa parte dela, ainda que interna, está indexada à variação cambial etc.
Uma sobrevalorização cambial, por sua vez, também implica enormes redistribuições de riqueza, conforme pode ser observado na seguinte passagem de um autor insuspeito como o economista Joseph Stiglitz: "O que torna a especulação lucrativa é o dinheiro proveniente dos governos, apoiados pelo FMI. Quando o Fundo e o governo brasileiro, por exemplo, gastaram aproximadamente 50 bilhões de dólares para manter a taxa de câmbio em nível supervalorizado no fim de 1998, para onde foi o dinheiro? Ele não desaparece no ar, acaba indo para o bolso de alguém – grande parte desse dinheiro foi para o bolso de especuladores. Alguns destes podem perder, mas outros especuladores como um todo somam uma quantidade igual à que o governo perde" (Stiglitz, 2002: 245).’
[...]

‘Quanto à política fiscal, cabe salientar que, seja por meio da política monetária ou da política cambial, o BC é capaz de aumentar ou reduzir as transferências de recursos públicos para o setor financeiro, isto é, transformar receita pública, arrecadada por meio de impostos, em lucros privados, e ainda decidir se tais lucros serão apropriados por nacionais ou estrangeiros. Portanto, decisões diárias do BC alteram a estrutura do orçamento público, determinando o volume de recursos que serão destinados ao serviço da dívida e o que restará ao governo para desempenhar as funções que a sociedade espera dele. Como vemos, o BC pode ser autônomo em relação ao governo, mas o governo não é autônomo em relação ao BC.’
[...]
‘A rigor, o Estado mantém uma relação orgânica com o capital. Por meio da política econômica, ele acentua as transferências de mais-valia dos setores retardatários para os setores de vanguarda, de forma que os fluxos de capitais se dirigem aos ramos de maior composição orgânica do capital. Já para o brasileiro Décio Saes “o papel do Estado enquanto organizador da hegemonia no seio do bloco no poder se revela justamente pela política econômica e esta revela a fração de classe hegemônica, que detém a preponderância política no interior do bloco no poder. O indicador da preponderância é o fato dessa fração de classe ter seus interesses econômicos prioritariamente contemplados pela política econômica e social do Estado”.’
Podemos resumir o argumento central do texto ao seguinte: sendo o BC autônomo, ele se encontra nas mãos dos banqueiros, que, por definição, formam uma camarilha sombria com intenções nefastas – sendo a maior delas o lucro a qualquer custo, nem que este represente a bancarrota do País. A autonomia do BC refletiria o endurecimento da dominação elitista no Brasil, refletida diretamente no Estado brasileiro. Vocês notaram alguma diferença entre essa argumentação e o anacrônico discurso marxista-leninista que ainda domina boa parte das mentes da dita intelligentsia brasileira? Nós, não.
Mas, esperem! Não acabou! O melhor, claro, está no final do texto:
A independência ou autonomia do BC em relação ao governo é, portanto, incoerente com a chamada soberania popular que se manifestaria no processo eleitoral. A rigor, tal proposta se configuraria como um estelionato eleitoral. Se votamos num determinado candidato, esperamos dele uma determinada política econômica. Como admitir que outros a façam de forma autônoma?
Um dos aspectos importantes desta discussão é que ela revela o conteúdo autoritário crescente das sociedades capitalistas contemporâneas, gerando sérias restrições para a expressão política da luta de classes.
[...]
‘Simplificando o processo que vivemos, o imperialismo na atualidade baseia-se em, de um lado, controlar as políticas econômicas nacionais, para deter o controle da repartição da renda e redirecioná-la para o centro da acumulação, utilizando, especialmente o expediente da dívida pública. Por conseqüência, o endividamento empurra o Estado para a crise fiscal. De outro lado também, promover as reformas, cujo sentido é desonerar o Estado das despesas sociais, liberando recursos financeiros para sustentação do mecanismo do endividamento público. É fácil perceber que esses fatores conjugados podem conduzir à deslegitimação do Estado e, ao mesmo tempo, indicam a possibilidade de uma saída autoritária.
O controle dos Bancos Centrais, pela posição estratégica que ocupam nas economias nacionais, é um elemento chave desse processo. Como o BC não é independente do “mercado” e como o Tesouro Nacional não é independente do BC, então, a independência do BC em relação ao governo significa o controle do Tesouro Nacional pelo “mercado”, por intermédio do BC.’
O norte ideológico do texto é indiscutivelmente explícito. Só não vê quem não quer. O que revolta, contudo, não é o fato de a professora apresentar esse texto à turma. O ponto realmente revoltante é a professora – que tem o dever de zelar pela construção isenta do conhecimento, sem dar prevalência a uma ou outra ideologia política – dizer que não iria se posicionar com relação ao assunto da autonomia do BC, mas defender que cada um dos pontos-chave ideológicos do texto corresponde rigorosamente à realidade. Isso é ainda mais grave quando o texto recorre a mentiras para embasar a sua lógica argumentativa: ao contrário do que o autor disse, o COPOM não consulta os bancos acerca do comportamento das variáveis macroeconômicas, mas consulta seus próprios relatórios de desempenho da economia (fruto do trabalho de mensuração dos indicadores econômicos, que fica a cargo de analistas e técnicos do BC). A maioria dos alunos em sala ficou chocada com a realidade distorcida que lhes foi descortinada como fato concreto. O nível desigual de conhecimento entre professora e estudantes serviu para a cooptação imediata destes ao pensamento daquela.
A transformação de aulas em processos de doutrinamento ideológico não é, infelizmente, nenhuma novidade na UnB. Entretanto, devemos lutar de maneira incansável contra essa tendência perniciosa. Cada um tem seus motivos para adotar determinada postura ideológica diante da realidade, e isso é fruto de um sem-número de subjetividades que não estão em questão nesse desabafo. O que está em questão é a desonestidade acadêmica de alguns professores em subverter o espaço que têm para construir o conhecimento com os alunos e utilizá-lo para doutrinar os estudantes, ensinando que sua visão de mundo corresponde à visão de mundo correta.
Usando as palavras do estadista Óscar Arias (ex-presidente da Costa Rica), ‘enquanto nós continuamos discutindo sobre ideologias, continuamos discutindo sobre todos os "ismos" (qual é o melhor?, capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo...), os asiáticos encontraram um "ismo" muito realista para o século XXI e o final do século XX, que é o pragmatismo’. Se continuarmos a perder tempo no ambiente acadêmico com ideologias sem utilidade e com cheiro de naftalina, insistindo em adotar uma postura falaciosa e sofismática frente aos nossos verdadeiros problemas (como a profunda crise de infraestrutura na qual o Brasil está atolado até o pescoço), nunca seremos mais do que uma imensa república de bananas.
Não podemos mudar de imediato essa situação no País como um todo, mas podemos começar a fazer isso na UnB. Precisamos nos posicionar firmemente contra a doutrinação ideológica dentro de sala e militar por um ensino de qualidade, alicerçado na construção plural do conhecimento, caso queiramos uma universidade que realmente atenda a seus propósitos.

Próximo post: O descalabro da segurança na UnB.

sábado, 17 de julho de 2010

A desinformação institucional na UnB

O principal veículo de comunicação institucional da Universidade de Brasília é o Portal da UnB, responsabilidade da Secretaria de Comunicação (Secom) da universidade. É função do portal informar a comunidade acadêmica e a sociedade no geral acerca das coisas que acontecem dentro da instituição. Portanto, o mínimo que se pode esperar é que as notícias pertinentes à UnB – reuniões, eventos, programas e notícias de um modo geral – sejam divulgadas através do portal.

O que vemos, entretanto, não é isso. O trabalho feito pela Secom se constitui, em boa parte, mais um mecanismo fajuto de propaganda do que um veículo de comunicação. A maior parte das notícias são menos matérias jornalísticas e mais peças de marketing da gestão do atual Reitor. Uma série de assuntos é tratada de maneira leviana pela equipe “jornalística” do portal – como foi o caso, por exemplo, dos protestos anti-homofobia, quando se exaltou a iniciativa como necessária e esqueceu-se de mencionar que murais, paredes e vidraças da universidade foram pichados.

Um dos casos mais graves foi a falta de divulgação da palestra do Prof. Dr. Rolf Martin Zinkernagel, agraciado com o Nobel de Medicina em 1996 por seu trabalho sobre o sistema imunológico. A visita – que, por si só, deveria merecer grande atenção do público no geral, já que são raras as oportunidades de se travar conhecimento com um pesquisador desse calibre – só foi divulgada às vésperas da palestra. Acreditamos que, se não fossem os protestos constantes do Prof. Marcelo Hermes-Lima (blogueiro do Ciência Brasil e professor do Instituto de Biologia da UnB), esse fato sequer seria divulgado pela Secom no Portal da UnB.

Outro caso que mostra bem essa política institucional de desinformação foi a visita do Prof. Dr. Omar Aktouf, da HEC-Montréal, à UnB. O Dr. Aktouf é, atualmente, um dos maiores nomes relacionados a mercado financeiro no mundo acadêmico. Sabem quantas linhas a Secom dedicou a divulgar a palestra? NENHUMA! Caso tenham dúvida, é só ir ao Portal da UnB, clicar na aba Notícias e digitar “Omar Aktouf” na área de pesquisa. O portal não irá encontrar nenhuma notícia relacionada a essa visita ilustre.

Esses casos suscitam algumas dúvidas. A que (ou a quem) serve o Portal da UnB? Qual deve ser o verdadeiro propósito da Secom? O que vemos é a subutilização do Portal da UnB, que vem sido reduzido a um mero instrumento de propaganda oficial da Reitoria, e nada mais. Isso só serve para atrapalhar a integração da universidade, que se encontra num nível de fragmentação alarmante em seus pontos críticos.

E, analisando esse quadro, é impossível não pensar em uma famosa máxima militar romana: dividir para conquistar.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os trotes violentos e a permissividade institucional na UnB


Nas últimas duas semanas, a comunidade acadêmica da Universidade de Brasília presenciou dois trotes violentos. Um deles aconteceu na manhã do dia 8 de julho, quinta-feira passada, e foi promovido pelo CA de Química. O outro aconteceu ontem, dia 13 de julho, e foi promovido pelo CA de Agronomia. O comportamento dos estudantes em promover esse tipo de baderna é, certamente, revoltante. Entretanto, ainda mais revoltante é notar a permissividade institucional na UnB com relação a essas situações - não somente por parte da Reitoria, mas igualmente por parte do DCE.
O trote é uma tradição universitária? Sem dúvida. Entretanto, há maneira diferentes de se realizar um trote com os calouros. Há uma diferença gritante entre uma recepção festiva e um ato público de humilhação. Toda vez que acontece um trote violento, que se pauta pela exposição acintosa dos calouros ao ridículo, os criticados usam o argumento mais fajuto possível: ninguém foi obrigado a participar. Salvas as devidas proporções, é como não condenar alguém que "convidou" outra pessoa a brincar de roleta russa. "Se houve aceitação do outro, qual o problema?", indagam.
A verdade é que os calouros se sentem coagidos a participar. Não é uma coação explícita, clara, mas tácita e velada. Nenhum calouro quer entrar na universidade e já ser estigmatizado de "fresco" ou "nojentinho" porque não aceitou participar do trote. Isso é algo claro. Muitos deles aceitam não por acharem o trote algo bacana, legal e divertido, mas por temerem ostracismo no seu primeiro semestre de curso.
Quando acontece um trote violento, que achincalha os calouros, o que acontece além de discussões e protestos pontuais? Nada. Absolutamente nada. A Reitoria adota uma postura paternalista frouxa de fazer vista grossa e não condenar veementemente esse tipo de comportamento - semnpre se fala em conscientização, de conversa, mas nunca, jamais, de punição. Do outro lado, o DCE demonstra total concordância com os argumentos da Reitoria e não faz nada - não se viu até hoje uma única reunião que o Diretório Central dos Estudantes tenha feito para tratar seriamente com os CAs sobre a violência desnecessária de alguns trotes.
Parafraseando o blogueiro Reinaldo Azevedo, os alunos que promovem essas demonstrações ridículas e humilhantes merecem uma boa borrachada democrática. A permissividade da Reitoria e a omissão vergonhosa do DCE só servem para estimular esse tipo de irresponsabilidade por parte de alguns CAs. Além de sujarem o nome da UnB junto à população, sujam a si próprios na comunidade acadêmica, estigmatizando-se. Passam a não ser levados a sério. E como representar com dignidade os estudantes de um curso se seu nome está associado a desrespeito e truculência? Impossível.
É realmente essa UnB, essa universidade sem rumo nem ordem, que queremos para nós?
Próximo post: A desinformação institucional na UnB.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Mentiras, vadiagem e o exercício do magistério na UnB


A Universidade de Brasília possui mais de mil professores. Muitos desses professores são altamente qualificados para ocuparem seus postos - possuem doutorado, pós-doutorado, realizaram inúmeras pesquisas nas áreas em que lecionam. Apesar da alta qualificação, muitos professores da UnB não são bons professores. E não é por falta de capacidade: trata-se de incompetência por opção. A falta de respeito para com os alunos chega a ser obscena.
Relataremos aqui dois casos que ilustram bem isso. Enquanto o primeiro deles é uma prova clara da preguiça e da incompetência a que chegam alguns professores, o segundo, em não sendo uma acusação formal, levanta dúvidas com relação ao comprometimento de uma parcela do corpo docente da Universidade de Brasília com suas funções e com os estudantes.
O primeiro caso ocorreu há 3 anos. Em 2007, um dos membros fundadores da Juventude Conservadora da UnB ingressou no curso noturno de Administração. A disciplina Introdução à Administração era então ministrada pelo professor Gilmar Masiero (pós-doutor pela Harvard University, um dos maiores especialistas brasileiros em comércio com a Coréia do Sul), que hoje trabalha na USP. Esse professor desenvolveu em sala um sistema de liderança de classe semelhante ao das turmas de ensino médio: um representante de turma foi eleito. Esse representante era responsável, inicialmente, pelo trabalho burocrático em sala de aula: recolher trabalhos e atestados médicos dos alunos e repassá-los ao professor. Era também responsável por alguns materiais que o professor disponibilizava para a turma como um todo. Sendo calouro, não se sentiu à vontade para se posicionar contra alguns abusos do professor.
O maior deles, entretanto, veio no fim do semestre: o professor atribuiu ao líder de turma a responsabilidade de fechar o diário de classe - ou seja, registrar as notas de trabalhos e provas no diário da turma e contabilizar as faltas dos alunos. O professor simplesmente eximiu-se da responsabilidade de fechar o diário de classe e, muito comodamente, transferiu essa responsabilidade a um aluno que, por ser calouro, achou melhor não contrariar o professor por receio de futuras retaliações.
O segundo caso ocorreu na semana passada. Um dos membros da Juventude Conservadora cursa Letras, e está com um problema: sua disciplina foi cancelada por conta do remanejamento da professora. Com isso, foi avisado que a disciplina não será ministrada. Por estar em condição na UnB e ter conseguido somente a quantidade exata de créditos para sair da condição, ele precisa dos créditos dessa disciplina para poder continuar seu curso na UnB. Na quinta-feira, por volta das 17h45, ele esteve no Instituto de Letras para poder conversar com a coordenadora do período noturno, Profª. Edna Gisela Pizarro. Outro de nossos membros estava acompanhando-o. A porta do IL estava trancada, mas havia luz dentro do instituto. Bateram à porta. Nada. Esperaram por um tempo, mas não houve resposta. Bateram novamente. Outra aluna chegou ao IL e também esperou por atendimento. Nenhuma resposta. Depois de quase quinze minutos batendo à porta praticamente de minuto em minuto, uma voz de mulher vinda de dentro do IL falou, ainda com a porta trancada, que a coordenadora não estava por ter precisado viajar com urgência naquele dia (doença na família, eis a justificativa). A tal mulher misteriosa (que, inclusive, tinha um sotaque estranho) pediu para os alunos voltarem no dia seguinte, sexta-feira, antes das 17h30 para que fossem atendidos.
Qual não foi a surpresa de nossos integrantes ao ouvirem da outra aluna, a que tinha chegado depois, que aquela voz era da própria coordenadora? A aluna foi categórica: já havia tido aulas com a Profª. Gisela e conhecia muito bem sua voz, o suficiente para saber que era ELA MESMA quem havia falado através da porta trancada. Na sexta-feira, nosso amigo voltou ao IL. Informaram a ele que a coordenadora estava ausente HAVIA DUAS SEMANAS e que não havia previsão de retorno para os próximos dias. Mesmo não tendo provas de que a mulher que falou aos estudantes na quinta-feira através da porta trancada era mesmo a coordenadora, é no mínimo esquisito esse desencontro de informações.
É mais do que óbvio que há alguns professores na UnB que não querem saber de trabalhar. Isso demonstra bem a profunda crise geral da universidade - onde os alunos farristas fazem o que bem entendem, muitos professores não estão nem aí para nada, e os alunos que realmente estudam pagam o pato por esse descaso.
Diante desse quadro, uma questão quer se fazer ouvida: será que os estudantes da UnB que realmente se comprometem com sua formação acadêmica não merecem um pouco mais de respeito e consideração?
Próximo post: Os trotes violentos e a permissividade institucional na UnB.

domingo, 11 de julho de 2010

A repercussão de nossa atuação na UnB

Esse blog iniciou suas atividades há quase um mês, em 15 de junho. Desde lá, tivemos pouca atuação além do ambiente virtual. Promovemos pequenos debates informais sobre a situação geral da UnB, buscamos ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre isso e, uma vez, colamos alguns cartazes no ICC nos posicionando publicamente contra as badernas generalizadas que estavam (e ainda estão) sendo promovidas por alguns CAs. Aqui, no blog, temos publicado textos que expressam não somente a nossa opinião, mas a de muitas outras pessoas que também veem a deterioração diária da universidade.

Gostaríamos de relatar aqui dois frutos de nossa atuação que julgamos bastante importantes.

No dia 6 de julho, a Prefeitura do campus Darcy Ribeiro reuniu-se com alguns CAs. O tema da reunião foi a constância de festas que têm perturbado o cotidiano acadêmico no período noturno com música alta e cerveja a torto e a direito. Nos informaram que uma das coisas que motivaram a convocação da reunião foi o nosso blog. Essa notícia nos surpreendeu bastante. Isso significa que, de alguma maneira, nossas opiniões têm servido para alertar uma parcela da comunidade acadêmica a respeito desse problema cotidiano.

O segundo troféu (se é que podemos chamar assim) que conseguimos com nossa atuação - tímida ainda, é preciso dizer - deve-se ao nosso texto sobre o "protesto" de alguns alunos do Departamento de Artes Cênicas da UnB no dia em que o Brasil estreou na Copa do Mundo, quando jogou contra a Coreia do Norte. Soubemos recentemente que os alunos que ficaram indignados com nosso texto estão iniciando uma certa mobilização contra o blog dentro do departamento. Esses alunos falaram para seus professores que nós tachamos todos os alunos de Artes Cênicas de palhaços, tarados, vagabundos e outros adjetivos nada abonadores - aqueles que lerem o texto em questão, bem como seus comentários, verão o que realmente aconteceu. Curiosamente, nenhum desses alunos divulgou o blog para os professores do departamento. Será que estão com medo de que os professores acabem concordando conosco? É bem provável que sim. Isso só demonstra a honestidade daqueles que tomam para si o papel de detratores nossos.

Estamos planejando algumas intervenções na universidade para as próximas semanas. Esses resultados só nos dão mais força e coragem para seguir adiante, e temos certeza de que o que fazemos não é somente justo, mas necessário dentro da UnB.

Próximo post: Mentiras, vadiagem e o exercício do magistério na UnB.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Resposta ao comentário do leitor Rodrigo Ferreira

Uma vez mais, vamos abrir uma exceção à ordem de postagens para postar algo mais urgente. A resposta ao comentário do leitor Rodrigo Ferreira ao nosso texto sobre as cotas "raciais" será feita por post normal por ter excedido o limite de 4.096 caracteres para comentários.

O comentário do leitor foi o seguinte:

Rodrigo Ferreira disse...
Ok, desculpa mas aí vocês passam do limite da ignorância. As piadas posts de vocês tavam ok, não fazia nem sentido comentar porque era óbvio que vocês estavam brincando e talz. Mas céus, isso já é exagero. Vocês estão na universidade onde os professores que deram origem ao sistema de cotas dão aulas e querem falar que os argumentos são frágeis? Vocês já leram ALGUM texto dos professores de Antropologia José Jorge de Carvalho, ou da Rita Laura Segato? Pelo que vocês, cidadãos super investigativos dos assuntos que se propõem a falar, disseram nesse post, vou deduzir que não.
Essa baboseira que vocês falaram sobre não existir raça é uma prova de que vocês não tem a menor idéia do que tão falando. O sistema de cotas universitárias não é baseado em diferenças biológicas, ele é baseado no estigma social imposto ao brasileiro negro.
Se vocês concordam que existe preconceito no Brasil, vocês tem que ser no mínimo meio lentos de raciocínio para questionar a não criação de cotas para brancos pobres. Obviamente não é uma questão de classe econômica. As cotas possuem o objetivo de diminuir a diferença estrondosa na relação de trabalho marcada por brancos em postos altos, e negros em cargos baixos de trabalho, para assim ser capaz de eliminar o preconceito.
Não é o fato de um aluno entrar por cotas na unviersidade que produz preconceito, mas o fato de pessoas desinformadas sobre o assunto, como vocês, não compreenderem a situação e criarem situações hostis.
Sugiro que vocês no mínimo se informem sobre os assuntos dos quais desejam falar, mesmo que for dessa maneira fútil e bobinha que vocês vem feito.
Caso vocês realmente se interessem por essas questões que levantaram, e não fizeram isso só pra tentar provocar e "causar" por aí (o que obviamente não tem tido muito sucesso) dêem uma olhada nesse texto da Rita, pode ser bem esclarecedor pra vocês.
http://vsites.unb.br/ics/dan/Serie372empdf.pdf

PS: Eu sei que vocês gostam de falar nos seus posts que os argumentos dos que discordam de vocês são frágeis e bobos ou algo assim. Se forem fazer isso, ao menos se dêem ao trabalho de responder nossas críticas, em vez de fugir delas e ignorá-las. Ilumine as nossas mentes pérfidas, pervertidas e manipuladas, vocês que são superiores.

Segue, abaixo, nossa réplica.
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Rodrigo,
Se você acha que os outros textos foram piadas, então é possível que você esteja perdendo o seu (e o nosso) tempo comentando aqui. Entretanto, vamos atender seu pedido de contestação de críticas. Esqueçamos o sarcasmo de mercearia, desses de baixa qualidade que se encontra a granel em qualquer lugar, e vamos falar sério aqui.
O começo do artigo da pesquisadora Fátima Oliveira aponta um ponto digno de menção:
"O BRASIL É UM PAÍS mestiço, biológica e culturalmente. A mestiçagem biológica é, inegavelmente, o resultado das trocas genéticas entre diferentes grupos populacionais catalogados como raciais, que na vida social se revelam também nos hábitos e nos costumes (componentes culturais). No contexto da mestiçagem, ser negro possui vários significados, que resulta da escolha da identidade racial que tem a ancestralidade africana como origem (afro-descendente). Ou seja, ser negro, é, essencialmente, um posicionamento político, onde se assume a identidade racial negra." (Grifo nosso.)
No artigo que você nos passou, a Profª. Drª. Rita Laura Segato diz que "não pode se dizer que exista propriamente um povo afro-brasileiro dentro da nação (exceto no caso restrito dos quilombolas), mas uma etnicidade afro-brasileira disponível, que se doa, ao povo brasileiro". Completa a autora:
"Da mesma forma, a afro-descendência não é, no Brasil, exclusividade das pessoas negras. Por isso, apesar de que se trata de um termo mais elegante que "negro", afrodescendente não deve ser utilizado para falar dos beneficiários das políticas afirmativas baseadas em princípios de discriminação positivas, porque afro-descendentes são a maior parte dos brasileiros 'brancos', em razão da demografia das raças extremamente desigual durante séculos.
Numa sociedade destas características, ser negro significa exibir os traços que lembram e remetem à derrota histórica dos povos africanos perante os exércitos coloniais e sua posterior escravização. De modo que alguém pode ser negro e não fazer diretamente parte dessa história – isto é, não ser descendente de ancestrais apreendidos e escravizados –, mas o significante negro que exibe será sumariamente lido no contexto dessa história.
Num país como o Brasil, quando as pessoas ingressam a um espaço publicamente compartilhado, classificam primeiro – imediatamente depois da leitura de gênero – binariamente, os excluídos e os incluídos, lançando mão de um conjunto de vários indicadores, entre os quais a cor, isto é, o indicador baseado na visibilidade do traço de origem africana, é o mais forte. Portanto, é o contexto histórico da leitura e não uma determinação do sujeito o que leva ao enquadramento, ao processo de outrificação.
Por outro lado, ser negro como "identidade política" significa fazer parte do grupo que compartilha as conseqüências de ser passível dessa leitura, de ser suporte para essa atribuição, e sofrer o mesmo processo de 'outrificação' no seio da nação." (Grifo nosso.)
Mais adiante, Segato diz:
"Muitos dos membros de povos como o Guarani, o Pataxó, o Potiguar, entre outros, se observados com um olho externo ao grupo, podem ser percebidos 'negros', isto é, de ancestralidade africana, porque esta ancestralidade se encontra presente em seus traços fenotípicos. Uma percentagem significativa de índios brasileiros são índios negros, sem que isso tenha a menor significação para as classificações vigentes ao interior do grupo indígena ou nas frentes de representação que estes povos oferecem face à sociedade nacional. A tipificação racial não pode deixar de resultar de um código de classificação socialmente relevante, e o que é socialmente significativo, neste contexto, é o pertencimento à sociedade indígena." (Grifo nosso.)
Desses pontos em destaque, pode-se inferir duas coisas:
1) Não há parâmetro racional-científico preciso que possa ser utilizado para se definir quem é negro e quem não é. A análise de fenótipos é tão válida cientificamente quanto a craniometria o era na determinação de distúrbios psicológicos ou de nível intelectual em seres humanos. Um exemplo dessa falha foi o caso de irmãos gêmeos univitelinos que pleitearam ingresso na UnB pelo sistema de cotas, mas apenas um deles foi considerado negro através de análise fenotípica (aliás, a repercussão do caso fez com que a Universidade de Brasília deixasse de analisar o padrão fenotípico e passou a efetuar a seleção de cotistas através de entrevista). Além disso, há traços fenotípicos que podem ser alterados por diversos meios - cirurgias, tratamentos, até mesmo doenças. Se a análise fenotípica for considerada critério válido, então uma pessoa pode deixar de ser negra em virtude desses meios citados.
2) Não basta se ter determinadas características físicas ou ancestralidade africana para ser negro: é necessário que o indivíduo se veja como negro, que assuma a identidade negra como sua. É um posicionamento político, como foi colocado. Vemos, então, que há uma ambiguidade aqui: o fato de alguém apresentar traços fenotípicos negros não o transforma necessariamente em um negro de fato no tocante à identidade. O que importa na questão das cotas não é propriamente ser fisicamente negro, mas ser politicamente negro. Esse parâmetro é subjetivo, e, como tal, não pode ser passível de análise por qualquer grupo que seja, muito menos um "tribunal racial", como o que é utilizado pelo CESPE na seleção de cotistas. O aspecto político da entrevista foi muito explicitado no parecer do procurador Sidio Rosa de Mesquita Júnior, que ora reproduzo:
"Se a primeira etapa do trabalho de identificação racial da UnB foi conduzido pela equipe da ‘anatomia racial’, a segunda foi conduzida por um comitê de ‘psicologia racial’. Trinta e quatro dos 212 candidatos com inscrições negadas na primeira etapa entraram com recurso junto à UnB. Uma nova comissão foi formada ‘por professores da UnB e membros de ONGs’, que exigiu dos candidatos um documento oficial para comprovar a cor. Foram ainda submetidos à entrevista (gravada, transcrita e registrada em ata) na qual, entre outros tópicos, foram questionados acerca de seus valores e percepções: ‘Você tem ou já teve alguma ligação com o movimento negro? Já se sentiu discriminado por causa da sua cor? Antes de se inscrever no vestibular, já tinha pensado em você como um negro?’ (Cruz, 2004). O candidato Alex Fabiany José Muniz, de 23 anos, um dos beneficiários da nova rodada da seleção das cotas, conseguiu um certificado comprovando que era pardo ao levar a certidão de nascimento e uma foto dos pais. Conforme seu depoimento, ‘a entrevista tem um cunho altamente político... perguntaram se eu havia participado de algum movimento negro ou se tinha namorado alguma vez com alguma mulata’ (Darse Júnior, 2004).’ (MAIO, Marcos Chor; e SANTOS, Ricardo Ventura. Política de Cotas Raciais, os ‘Olhos da Sociedade’ e os usos da antropologia: o caso do vestibular da Universidade de Brasília [UNB]. Documento juntado à fls. 219-221 dos autos)" (Grifo nosso.)
Entendemos que, mesmo agora, nossos argumentos sejam vistos por você uma manifestação "fútil e bobinha" e devem ter passado do "limite da ignorância". Talvez, então, seja necessário a opinião de um histórico militante do movimento negro - que, desde o princípio, posicionou-se CONTRA a política de cotas "raciais" - para dar maior credibilidade a nossos argumentos perante você e outros que compartilhem consigo esse pensamento. Recomendamos o texto "Projetos de Lei do ESTATUTO DE IGUALDADE RACIAL e Lei de 'Cotas Raciais': A reflexão que vale a pena ser feita" e "Cotas Raciais x Ações Afirmativas: Uma reflexão", cujo final reproduzimos abaixo:
"Assim ponderando, lutemos pela construção de um ESTATUTO da Promoção da Igualdade através de Ações Afirmativas, neutras, a única doutrina jurídica, realizadora do ideal de Aristóteles, que Rui Barbosa sintetiza como igualdade real: o tratamento igual aos iguais e o tratamento desigual a quem esteja em situação de desigualdade, com os recursos institucionais prescritos por J. J. Rousseau, 'O Contrato Social': 'se a desigualdade é inevitável, a lei deva promover ações tendentes a assegurar a igualdade' que é a base doutrinária nuclear de ações afirmativas. Sem raças." (Grifo nosso.)
Agradecemos pela participação no blog e por contribuir para ao discussão acerca desse assunto tão polêmico.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A luta contra as cotas "raciais"

A Universidade de Brasília foi a primeira instituição de ensino superior federal a instituir o sistema de cotas para negros em seu vestibular tradicional, o ocorreu em junho de 2004. Isso é motivo de orgulho para muita gente dentro da UnB.

Entretanto, a questão das cotas não é um assunto ameno. É bastante polêmico. Tanto que, recentemente, a Fundação Universidade de Brasília (FUB) encaminhou consulta ao procurador federal Sidio Rosa de Mesquita Júnior sobre os critérios adotados para o sistema de cotas para negros no vestibular e no PAS. O procurador emitiu seu parecer no dia 29 de junho de 2010. As informações são do blog NoRace, da advogada Roberta Kauffmann.

Para nós, o sistema de cotas "raciais" da UnB não é motivo de orgulho. Ao contrário: é motivo de vergonha. O sistema de cotas "raciais" tem por objetivo tornar institucional duas grandes falácias: (1) a Humanidade pode ser dividida em raças; e (2) a população brasileira é dividida entre brancos e negros. Os argumentos que defendem a legitimidade e a necessidade do sistema de cotas são, em grande medida, frágeis: compensar séculos de exploração escravagista, combater o racismo, dar aos negros as mesmas oportunidades dos brancos no âmbito educacional, etc.

Vamos às tais falácias:

1) A Humanidade pode ser dividida em raças.
ERRADO! Quem fala sobre o tema, e com grande propriedade, é o Prof. Dr. Joaze Bernardino-Costa: "a categoria raça é uma construção sociológica, que por esse motivo sofrerá variações de acordo com a realidade histórica em que ela for utilizada" (BERNARDINO-COSTA, Joaze; GALDINO, Daniela. Levando a raça a sério: ação afirmativa e universidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2004, p. 19-20). O artigo "Ser negro no Brasil: alcances e limites", da pesquisadora Fátima Oliveira, também ajuda a compreender esse ponto: 

Estudos da genética molecular, sob o concurso da genômica, são categóricos: a espécie humana é uma só e a diversidade de fenótipos, bem como o fato de que cada genótipo é único, são normas da natureza. Tendo o DNA como material hereditário e o gene como unidade de análise, não é possível definir quem é geneticamente negro, branco ou amarelo. O genótipo sempre propõe diferentes possibilidades de fenótipos. O que herdamos são genes e não caracteres!

Como se pode ver, não há prova científica que determine a existência de raças diferentes dentro da Humanidade.

2) A população brasileira é dividida entre brancos e negros.
ERRADO! A população brasileira é fruto de um processo de miscigenação que é único no mundo. Não há como dividir arbitrariamente uma população que passou por séculos de mistura entre europeus, africanos e índios (além de asiáticos, como árabes e japoneses) em duas categorias antagônicas. Além de ser uma simplificação grosseira, é uma grande mentira.

É fato incontestável de que há racismo na sociedade brasileira. Isso é ponto pacífico. Entretanto, o sistema de cotas "raciais" não diminui o racismo. Ao contrário: ele fortalece o sentimento racista. Não são raros os casos de estudantes universitários cotistas que já foram discriminados e ofendidos justamente por serem cotistas. O sistema de cotas é uma maneira de se nivelar os alunos por baixo. Além dessa discriminação, há a discriminação contra os brancos pobres. Por que deveria um aluno negro de classe média ter preferência no vestibular em detrimento de um aluno branco de classe baixa? Será que a utilização de um critério não-científico é válido para efetuar essa escolha?

Uma evidência dessa discriminação reversa pode ser encontrada facilmente na UnB. O grupo EnegreSer (Coletivo de Estudantes Negros na UnB) com a proposta de debater as questões da comunidade negra da UnB, além de outros assuntos de interesse - produção acadêmica, literatura, etc. O grupo se reúne todo sábado no subsolo da ala norte do ICC, perto da AD&M Consultoria. E é grupo EXCLUSIVO para negros. Ou seja, alunos não-negros que queiram conhecer o grupo, suas atividades e sua produção não são aceitos unicamente com base na cor da pele. Agora, vamos pensar: esse grupo existiria se fosse de alunos autointitulados brancos que não permitissem a entrada de não-brancos? Não. E por quê? Porque esse comportamento tem um nome: RACISMO.

Para finalizar o texto, reproduzimos abaixo opinião de uma professora da UnB a respeito da questão das cotas "raciais" e convidamos todos a refletir sobre esse tema.

Por algumas vezes discuti o tema com alunos e, uma vez, perguntei a uma sala cheia - 40 alunos - quem era a favor das cotas. Nesta época, o deputado distrital Paulo Tadeu era meu aluno e estava presente. Apenas uma aluna não levantou a mão em favor deste absurdo. Curiosa com a exceção, quis saber o porquê de sua reação. Ela respondeu que, inicialmente, tinha entrado por cota para a UNB, em um curso que pensava que trabalharia com "Direitos Humanos". Serelepe e ansiosa por iniciar sua vida de protestos e manifestos, foi a algumas reuniões de Cotas. Entretanto, decepciou-se de pronto! Só chegou a ir umas três vezes porque sentia que não conseguia ser engajada ou se engajar no time dos "negros". O golpe mortal veio quando o líder, aluno, chegou para ela e a questionou: "Eu não entendo o que você está fazendo aqui vez que não é negra! Tudo bem que voce não é loira de olhos verdes, mas você não é negra." Ela, muito impressionada com a indagação e decepcionada com o fato, abandonou o curso, as ideias de manifestos, desistiu da cota e prestou vestibular para outro curso. Tornou-se a única contra esta ideia absurda.

Ainda sobre o tema, penso que se valorizamos nossos precursores, negros, agora, afrodescendentes - é mais chic! -, devemos lembrar deles pela sua capacidade de luta e do vencer e não pela (des)meritocracia, capacidade de derrota... O que a cota representa?! Os pobres, coitados, que não possuem capacidade o suficiente para passar em um vestibular e que, certamente, terão bolsas para o resto de suas vidas "já que não conseguirão ser absorvidos pelo mercado de trabalho". Serão os "deitados ETERNAMENTE em berços esplêndidos"? TODOS NÓS BRASILEIROS SOMOS NEGROS!

A política, ou como ser quer designar este absurdo, é uma ideia Hitleriana, do julgamento da capacidade pelo externo. Mensuração da cor, altura, beleza, estética... A Universidade tem deixado de se preocupar com a Ciência para se preocupar com isso?

Próximo post: a repercussão de nossa atuação na UnB.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

UNIPA - União dos Pichadores Anencéfalos

Falamos em nosso último post da Oposição CCI, um grupelho de estudantes barulhentos que, além de não se interessarem de fato pelas reais necessidades da comunidade estudantil da UnB, ainda acham que atrapalhar reuniões e depredar a universidade é uma boa maneira de defender seu posicionamento político-ideológico. A grande pichação na face sul do Pavilhão João Calmom (PJC) - onde se lê a sentença "PASSE LIVRE OU REBELIÃO JÁ!" - é assinada pela RECC (Rede Estudantil Classista e Combativa), que tem na Oposição CCI sua representação oficial dentro da Universidade de Brasília. Mas não são só esses grupos que gostam de deixar sua marca na universidade.

Ao lado do PJC é possível ver uma grande pichação onde se lê "VIVA A REVOLUÇÃO PROLETÁRIA!". Essa pichação é assinada pela UNIPA. Mas o que raios é UNIPA? Não é muito difícil saber que grupo é esse. UNIPA significa União Popular Anarquista, e é um dos grupos aliados da Oposição CCI dentro da UnB. Tanto é assim que há no blog da Oposição CCI um link para o site da UNIPA. Em sua seção Quem somos, assim está escrito:

A União Popular Anarquista (UNIPA) é uma organização política revolucionária bakuninista. A UNIPA luta pela construção do socialismo no Brasil. A estratégia revolucionária da Unipa aponta que somente a ação direta das massas e a luta de classes são capazes de realizar conquistas imediatas, econômicas e políticas, para a classe trabalhadora. A UNIPA entende que somente a revolução, que se coloca como desdobramento da luta de classes, é capaz de viabilizar a construção da sociedade socialista.

"O que significa ser bakuninista?", você deve estar se perguntando. Bakuninista é todo aquele que segue a ideologia de Mikhail Bakunin (1814-1876), teórico político de origem nobre e um dos principais expoentes do anarquismo. Quando viveu em Paris, Bakunin conheceu Pierre-Joseph Proudhon (outro teórico anarquista) e Karl Marx. É bem sabido que sua desavenças com o papa do socialismo eram profundas, tanto no campo ideológico quanto no terreno pessoal, e seu nome é, até hoje, um símbolo de oposição ao marxismo (corrente mais-que-dominante dentro do pensamento socialista contemporâneo). 

Cabe aqui, no entanto, uma pergunta: se Bakunin se opunha ao marxismo, e sendo o marxismo o norte inconteste do socialismo, como esse pessoal pode ser bakuninista (e, portanto, anarquista) e, simultaneamente, lutar pelo socialismo? Há aí uma patente incongruência ideológica no âmago do movimento. Ou se é anarquista, ou se é socialista. Nesse caso particular, não há espaço para hibridismos ideológicos.

Outro ponto que merece consideração é especificamente a adoção do termo bakuninista. De acordo com George Woodcock, um dos grandes teóricos anarquistas do século XX, o anarquismo possui em seu bojo o princípio da não-doutrinação. Assim explica o autor:

"Toda a posição do anarquismo é completamente diferente de qualquer outro movimento socialista autoritário. Ela tolera variações e rejeita a ideia de gurus políticos ou religiosos. Não existe um profeta fundador a quem todos devam seguir. Os anarquistas respeitam seus mestres, mas não os reverenciam, e o que distingue qualquer boa compilação que pretenda representar o pensamento anarquista é a liberdade doutrinária com que os autores desenvolveram idéias próprias de forma original e desinibida." (WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas. Rio Grande do Sul: L & PM Editores Ltda, 1981. 54p.)

Adotar para si a tipificação de bakuninista demonstra uma total e irrestrita submissão ao ideário desse teórico em particular, o que caracteriza não somente reverência ideológica, mas reverência pessoal. Curiosamente, isso vai contra esse princípio de não-doutrinação, um princípio que faz parte da essência do anarquismo.

Esse desfile de contradições radicais é visível para qualquer pessoa que possua disposição para pesquisar esses assuntos com alguma profundidade. Em se tratando de estudantes universitários, a possibilidade de enxergar tal paradoxo é ainda maior. Voltamos a repetir o que dissemos em nosso post "Guerrilha, ditadura e idolatria na UnB": é inconcebível que estudantes universitários - seres, a priori, pensantes - envolvam-se com esse aglomerado confuso de ideias aglutinadas mal e porcamente, como um rota colcha de retalhos político-ideológica que faz as vezes de manto sagrado.

Próximo post: a luta contra as cotas "raciais".

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A Oposição CCI - Caudilhista, Caduca e Irresponsável

Há na UnB, desde o ano de 2008, um grupo de oposição ao DCE que se autointitula Oposição CCI (Combativa Classista Independente). Esse grupo é ligado ao Partido da Causa Operária (PCO), de tendência trotskista, e à Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC). Com a proximidade das eleições para o DCE, a Oposição CCI está organizando reuniões para a formação de uma chapa com a qual possam concorrer nas eleições para o DCE-UnB. Em cartazes espalhados pelo campus Darcy Ribeiro, especialmente no ICC, é possível ler algumas das posições defendidas por esse grupo. Elas estão disponíveis também no blog da Oposição CCI:

- Nem Enem nem Vestibular, acesso livre já!
- Fora polícia do campus!
- Fora Fundações Privadas!
- Pela ampliação de uma verdadeira Assistência Estudantil!
- Pelo Passe Livre Estudantil Irrestrito!
- URP para todos!
- Contra a tercerização e precarização do trabalho na universidade!
- Pela conclusão das obras nos novos campi!
- Abaixo a UNE pelega!
- Reconstruir o Movimento Estudantil Classista e Combativo!
- Nenhuma ilusão na democracia burguesa: Pela Ação Direta Estudantil!
Também é possível ler no blog da Oposição CCI que foram eles os responsáveis pela implosão da reunião do CEPE (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão):

No dia 13 de maio foi deliberada em assembléia estudantil a continuidade da greve e a não aprovação do calendário acadêmico no CEPE (Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão), já que este prejudicaria as greves, em especial a dos estudantes, e as atividades acadêmicas em geral, tendo em vista o fechamento do R.U, biblioteca, secretarias etc. Os estudantes, após esta assembléia, desceram em manifestação para a reunião do CEPE, onde a maior parte dos estudantes e servidores presentes implodiram o CEPE, com vistas a efetivar a deliberação da assembléia. Tal ação combativa foi acompanhada pelos gritos histéricos do governismo e da direita clamando pela "civilidade", pela "responsabilidade" e pela "democracia na universidade" (sic). Nós da Oposição CCI afirmamos que não temos compromisso nenhum com a lógica parlamentarista de conciliação de classe, traidora e oportunista da diretoria do DCE e sua base de apoio reacionária e pequeno-burguesa, afirmamos que a democracia burguesa não passa de uma fachada, assim como os apodrecidos conselhos "70-15-15" da burocracia universitária.

Vê-se muito bem o caráter dos estudantes que participam desse grupo. Essa minoria barulhenta impõe sua balbúrdia como maneira de forçar sua vontade - o que, dentro de seu estrabismo ideológico, é perfeitamente aceitável, um comportamento estimulado como sendo legítimo - e, quando não consegue o que quer, esperneia como uma criança mimada a quem a mãe nega um brinquedo caro. E aí, o velho jargão bolchevista (não mais vermelho, mas já rosa de tão desbotado) surge, impávido, vituperando contra os "reacionários", "pequeno-burgueses", "direitistas", "traidores", "pelegos", "governistas" e "oportunistas". Para essa gente, seguir os trâmites legais e legítimos é vergonhoso e ultrajante, mas sabotar e depredar é sinônimo de força e honra, um caminho a ser perseguido com vigor e determinação.

No blog da Oposição CCI, encontra-se facilmente uma explicação bastante interessante sobre a que veio esse grupo:

Nós da Oposição CCI só temos compromisso com o terreno da luta de classe. É nela que nos encontramos e nos comprometemos a desenvolvê-la até as últimas conseqüências, defendendo os interesses imediatos e históricos da classe proletária.

Há estudantes de todos os níveis sociais na UnB. Todos eles, tanto os que dependem das bolsas-permanência quanto aqueles que vão de motorista particular para a universidade, sofrem com os problemas que encontramos na UnB - a degradação da infraestrutura, a grande defasagem dos currículos dos cursos, a falta de segurança, dentre outras questões. Levantar a bandeira esfarrapada da luta de classes, um fóssil ideológico que não encontra ecos legítimos na realidade brasileira atual, é dividir os estudantes em grupos antagônicos com base num ódio irracional e pouco explicável.

Claro está que esse grupelho de comunistas do ensino médio, que se recusaram a crescer e amadurecer, não tem absolutamente nenhuma identificação com os estudantes da UnB. Seu interesse reside apenas no desejo de disputar o poder dentro do movimento estudantil à revelia dos reais interesses do corpo discente da Universidade de Brasília.

Observação: a enorme pichação que pode ser vista no Pavilhão João Calmom (PJC) traz a assinatura do RECC, grupo ao qual a Oposição CCI está ligada. Coincidência?

Próximo post: UNIPA - União dos Pichadores Anencéfalos