terça-feira, 22 de junho de 2010

Movimento estudantil e partidarismo de esquerda

O movimento estudantil tem sido, há décadas, caracterizado por seu alinhamento de esquerda. Desde os idos do Estado Novo, passando pelo período bastante turbulento dos governos militares (cujo eco dentro do próprio ideário esquerdista é impossível não notar), as organizações de representação dentro do movimento estudantil são organizações de esquerda ideologicamente falando. Esse fato, por si só, não é censurável. Afinal, vivemos, hoje, em um Estado Democrático de Direito, um regime em que todos devem ter a segurança necessária de defender seu posicionamento político contanto que não fira aquilo que está expressamente vedado em nossas leis.

Entretanto, uma pergunta deve ser feita: as organizações representativas do movimento estudantil são o próprio movimento ou uma parte importante dele? A segunda resposta é, em nossa opinião, a correta. Essas organizações são formadas e seus membros, eleitos, para que os interesses dos estudantes sejam defendidos - como, no caso da UnB, transporte intra e intercampus, melhoria na infraestrutura de ensino, atualização dos currículos dos cursos, dentre outros.

Sabemos, entretanto, que isso, muitas vezes, não ocorre. Para os mais atentos a esse assunto e à dinâmica política dentro das universidades, os órgãos representativos do movimento estudantil servem para o encastelamento de membros de partidos políticos que enxergam, dentro da universidade, uma maneira de estender sua sua influência e marcar pontos no jogo político-partidário. São raros as chapas de DCEs que não recebem financiamento partidário e que, uma vez eleitas, alinham a sua agenda com a agenda de seu mecenas, relegando as necessidades da comunidade estudantil a segundo plano.

E os principais partidos que estão infiltrados nas organizações do movimento estudantil são, sem sombra de dúvida, os partidos de esquerda - PT, PC do B, PSTU, PSOL e PCO. No período de campanha para DCEs, por exemplo, representantes desses partidos fazem reuniões com suas chapas para prepará-las para o pleito e para repassar os recursos financeiros que serão utilizados na confecção de materiais de divulgação - cartazes, faixas, adesivos, broches e, em alguns casos, até camisetas e bonés. O afã para se vencer uma eleição de DCE é tão grande que muitas vezes há brigas violentas - que, não raro, chegam ao cúmulo de extrapolar o campo das palavras e das ideias - entre os próprios partidos de esquerda para que sua chapa saia vencedora.

Quando se está tão profundamente ligado a um partido político, o próprio sentido da organização se desvirtua. As competências se confundem, e não se sabe mais onde termina o programa partidário e onde começa a luta pelos estudantes dentro do contexto universitário. As organizações do movimento estudantil deveriam estar livres da influência de quaisquer partidos políticos, independente de seu alinhamento ideológico, para que seus esforços pudessem estar melhor focados nas necessidades do corpo discente das universidades. Isso é pré-requisito essencial, a nosso ver, para uma atuação isenta junto à comunidade estudantil.

Como dissemos mais acima, o movimento estudantil não se resume a suas organizações representativas. O movimento estudantil é feito por todo e qualquer estudante que, consciente dos problemas que estejam afetando negativamente a vida acadêmica e a universidade como um todo, decide se mobilizar para mudar essa situação. É muito cômodo relegar a responsabilidade pela luta dos interesses dos estudantes a um DCE e ficar de braços cruzados enquanto a universidade se esfacela.

Se nós, a comunidade estudantil, não amadurecermos e reconhecermos que todos, sem exceção, somos responsáveis pela universidade que temos, teremos um futuro bem pior do que o nosso presente.

Próximo post: consumo e tráfico de drogas na UnB - mito ou verdade?

Um comentário:

  1. É triste ver algo como isso acontecendo dentro da universidade. Já é triste ver isso acontecendo no cenário político nacional e é mais triste ainda ver isso acontecendo numa universidade que deveria, em primeiro lugar, afastar a faculdade de toda qualquer ideologia política. Deveria, mas não o faz. Transformam a universidade num laboratório de testes políticos, vencendo aquele cuja ideologia for mais irracional e que possuir um maior apoio financeiro – para este último, não importa de é legal ou ilegal, mas apenas se conseguirão ter o poder. É triste e, infelizmente, é a realidade.

    “Se nós, a comunidade estudantil, não amadurecermos e reconhecermos que todos, sem exceção, somos responsáveis pela universidade que temos, teremos um futuro bem pior do que o nosso presente.”

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