terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Darcy Ribeiro e a chacota institucional na UnB

Alunos da UnB vaiam Lula e o chamam de "demagogo" na inauguração do… beijódromo!!! Ou: estatizando o tesão!
Por Reinaldo Azevedo
 
Leiam o que vai abaixo. Volto em seguida.
 
Por Simone Iglesias, na Folha Online:
A inauguração do Memorial Darcy Ribeiro, batizado de "beijódromo", foi marcada por manifestação dos alunos contra o reitor da UnB (Universidade de Brasília), José Geraldo Sousa Júnior e contra a obra. O presidente Lula também foi alvo dos manifestantes. Enquanto discursava, o reitor foi vaiado e teve que ouvir gritos dos manifestantes, que são estudantes da universidade. "UnB sucateada", "chega de mentira" e "fora repressão" foram algumas das expressões gritadas em coro pelos alunos.
 
Quando foi discursar, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, pediu um acordo com os manifestantes, que parassem de gritar em respeito a Lula e Mujica. "A hora é de saudar o mestre Darcy Ribeiro", afirmou Ferreira, que desistiu de discursar por causa do calor. Disse que publicará seu discurso no site do Ministério da Cultura. Os manifestantes ensaiaram vaiar o ministro e não suspenderam a manifestação.
 
O beijódromo custou cerca de R$ 8,5 milhões e ficou pronto em poucos meses. Por conta da rapidez das obras, os alunos criticavam o fato de a Casa do Estudante não ter ficado pronta como foi prometido pela reitoria. A cerimônia foi realizada ao lado do memorial e a cobertura montada pela organização do evento era de plástico transparente, o que deixava vazar o sol para os convidados.
 
DEMAGOGO
Ao começar a discursar, Lula também foi alvo dos manifestantes. Enquanto falava da biografia de Darcy Ribeiro, os alunos gritavam "demagogo". O presidente pareceu irritado e o volume do microfone foi aumentado, abafando a voz dos manifestantes que foram barrados pela segurança e ficaram do lado de fora das grades que separavam o palco e convidados dos alunos da universidade. "Ô Lula, deixa a galera entrar", gritaram, durante boa parte do discurso presidencial.
 
Comento
Você não entendeu direito, leitor amigo? Eu tento explicar o que tem explicação. O "Beijódromo" é um centro de vivência que também abriga o museu Darcy Ribeiro, primeiro reitor da UnB, que tinha, entre seus delírios tidos como poéticos, a criação de um troço assim… E aconteceu, como se vê. Ao custo de R$ 8,5 milhões. Quase R$ 9 milhões para os estudantes poderem dar um ralo, como se precisassem desse tipo de estímulo, não é mesmo? Um estado totalitário reprime o tesão. Um estado demagogo o estatiza. Não é o fim da linha porque Tiririca está errado, e pior sempre pode ficar.
 
Havia, não sei há ainda, uma turma na UnB que sempre achava um pretexto para ficar pelada. Se o beijódromo era uma ousadia na década de 60, qual será a transgressão possível no segundo decênio do século 21? Já sei! A heterossexualidade monogâmica, hehe…
 
Dá pra levar a sério?
 
Pobre UnB! A universidade viveu o seu auge sob o comando de José Carlos de Almeida Azevedo, que morreu, aos 78 anos, no dia 23 de fevereiro deste ano. Ocupou o cargo de 1976 a 1985. Era mestre em física,  engenharia e arquitetura naval, e engenharia nuclear pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Ex-oficial da Marinha, era visto como o "interventor" da ditadura na Universidade.
 
Na gestão Azevedo, criaram-se muitos cursos de graduação e pós-graduação, construíram-se bibliotecas, contrataram-se professores de renome internacional, e a Editora da UnB se tornou uma referência na publicação de livros acadêmicos. Aí começou a fase da "democratização" da universidade, entenderam? Em 1985, Cristovam Buarque foi eleito para o cargo. É o senador que quer incluir na Constituição a garantia da felicidade. Hoje, ela é dirigida por José Geraldo Souza Júnior, grande expoente do "direito achado na rua". Ele entrou na Universidade quando Azevedo estava deixando a reitoria. A coisa tem seu simbolismo.

É improvável que se faça um prédio em homenagem a Azevedo. Caso acontecesse, não poderia ser um beijódromo, mas um centro de pesquisa, coisa impensável para uma universidade…
 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Educação, doutrinação e emancipação na UnB

Qual é o objetivo da educação? Apesar de aparentemente simples, a resposta para essa pergunta gera debates acalourados desde que foi formulada pela primeira vez. A visão que normalmente se tem sobre os opinantes nesse assunto é que muitos defendem que a educação deve servir de instrumento para a perpetuação do status quo, enquanto outros defendem que a educação deve servir justamente para subverter o status quo. Na verdade, estes e aqueles são as mesmas pessoas; o que varia é a situação.
 
Acreditamos firmemente que o objetivo da educação é emancipar o indivíduo. Essa emancipação significa torná-lo plenamente apto a gozar de sua liberdade ao disponibilizar ao indivíduo o ferramental técnico-científico para analisar o mundo e, de acordo com seus próprios valores, inserir-se nesse mundo. A decisão de ocupar o papel de mantenedor ou subversor da ordem vigente cabe única e exclusivamente ao indivíduo. Essa decisão deve ser fruto do raciocínio individual, e não de um processo estruturado de doutrinação através da educação. Por isso que defendemos que a educação não deve privilegiar esta ou aquela doutrina ideológica, mas deve proporcionar ao indivíduo o contato dialético com as ideologias existentes, de modo que caiba a ele escolher ou não o que defender.
 
Essa postura, entretanto, é coisa rara de se encontrar nos meios acadêmicos, sobretudo junto àqueles que se dizem defensores de uma educação popular e "progressista". Quando se afirma categoricamente que educação popular deve ser não apenas "um processo de alfabetização de trabalhadores do campo ou da cidade", mas também "uma oposição ao sistema opressor em que vivemos" - como o fez o Prof. Dr. Renato Hilário dos Reis (Faculdade de Educação - UnB) em encontro recente ocorrido no campus da UnB de Planaltina -, defende-se que a educação deve ser um instrumento de doutrinação ideológica que vise à subversão da ordem vigente. Esse raciocínio não admite a liberdade de pensamento e de escolha do educando, muito menos a existência de uma postura crítica deste com relação à educação que recebe, mas tão-somente a doutrinação ideológica através da educação.
 
Educar é emancipar. Emancipar é proporcionar ao indivíduo condições para que possa caminhar com as próprias pernas, e não definir o caminho que ele deve seguir. Quando uma universidade defende que educação é trilhar um único caminho, quando é defendida (explícita ou implicitamente) a ideia de que a educação deve servir de instrumento de doutrinação, é possível falarmos em liberdade?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A trupe dos bufões ataca novamente


A Universidade de Brasília é um lugar surpreendente, cheio de pessoas surpreendentes que, incansavelmente, diuturnamente, são capazes de coisas, por que não?, surpreendentes. Aqueles que pensam que o Portal da UnB serve apenas para bajulação pegajosa e barata ao Grande Timoneiro e seu séquito de alcaides acadêmicos, engana-se redondamente. A propaganda vai muito além disso: o Grande Cefalópode também entra na ciranda, não como figurante, mas como protagonista.
Conforme noticiado pela Secretaria de Comunicação da UnB, o presidente Lula reuniu-se com reitores e fez um balanço extremamente positivo (e delirante) sobre a expansão universitária promovida em seu governo. Bom, que o Grande Cefalópode fizesse isso já era de se esperar - afinal, Lula tem sua própria reputação a zelar, apesar de duvidar que o Sr. Presidente tenha, nesses oito anos de mandato, visitado uma única instituição federal de ensino superior (IFES) e averiguado realmente as condições em que elas se encontrassem. Mas o que esperar de um integrante da administração de uma universidade pública federal que, aparentemente alheio a todos os problemas que surgiram nos últimos anos, faz coro à "avaliação" de Lula? Segue abaixo trecho da reportagem, e, em seguida, comentário:
'João Batista de Sousa, vice-reitor da Universidade de Brasília, esteve no Palácio do Planalto representando a UnB e afirmou que o sentimento de que o governo Lula teve um papel importante no crescimento das instituições federais de ensino superior é compartilhado por todos os reitores. "A expansão universitária é o maior programa de investimento para as universidades federais", diz. "As universidades estavam sucateadas".
O professor lembrou os números do crescimento da UnB, que passou de 1.535 docentes em 2008 para mais de 2.100 este ano. Além disso, três novos campi foram criados no Gama, Planaltina e Ceilândia, gerando mais de 500 vagas a cada semestre. Só no último vestibular, foram oferecidas 176 novas vagas e três novos cursos.'
Em outubro deste ano, foi lançado um manifesto de reitores de algumas IFES que, voluntariamente, prestaram-se a um papel de bajulação oficiosa que envergonha e indigna qualquer um que tenha um mínimo de capacidade analítica, de conhecimento sobre a realidades dessas universidades e, claro, de vergonha na cara. Naquele documento, bem como nas declarações acima reproduzidas, tenta-se transformar essa expansão universitária atrapalhada e mal-estruturada em sinônimo de melhoria na qualidade do ensino superior público do País. Certamente, muitos que estudam e trabalham na UnB devem sofrer de seriíssimas alucinações sonoras, visuais e até mesmo táteis. Onde esconderam a qualidade universitária tão propagandeada pelo governo Lula?
Ou será que somos nós - que convivemos dia-a-dia com currículos defasados, a falta de laboratórios de pesquisa, de laboratórios de informática, de livros atualizados, de campi plenamente estruturados - os loucos dessa história?

domingo, 28 de novembro de 2010

Ceilândia, UnB e Niemeyer: uma tragicomédia

Como deve ser da ciência de todos, a UnB possui 4 campi: Darcy Ribeiro (o principal, localizado na Asa Norte), Planaltina, Ceilândia e Gama. Se a infraestrutura do campus Darcy Ribeiro é sofrível, o que se vê nos outros campi é ainda pior. Basta perguntar a qualquer estudante de Planaltina, Gama ou Ceilândia para saber da real carência de estrutura de ensino.

Quinta-feira passada, dia 25 de novembro, a Secretaria de Comunicação da UnB noticiou que o campus de Ceilândia, cuja construção se arrasta numa novela interminável, não será entregue à comunidade no dia 1º de dezembro, como havia sido prometido pelo governador Rogério Rosso. A expectativa é que o campus esteja pronto para receber os alunos da UnB somente no primeiro semestre de 2011.

Diante desse atraso, o que era de se esperar do nosso Grande Timoneiro, o reitor José Geraldo? Uma postura firme de indignação diante do atraso, no mínimo, e, talvez, uma reunião com o governador Rosso - e, talvez, com o governador eleito, Agnelo Queiroz - para se discutir esse problema que tanto vem atrapalhado a vida e os estudos dos universitários que estudam em Ceilândia. Entretanto, parece que é bem mais proveitoso e interessante ao Grande Timoneiro se perder em lucubrações nostálgicas sobre o início da Universidade de Brasília.

De que adianta a recordação, feita em tom quase cinicamente romântico, de que Niemeyer dava aulas sob as árvores do campus Darcy Ribeiro no iníco da UnB? E o que deveriam fazer os estudantes do campus de Ceilândia diante dessa informação? Chorar de emoção ao saber que a falta de infraestrutura de ensino, desde a fundação da universidade (em 1961), é uma tradição que se perpetua ao longo das décadas?

O único choro que pode advir dessa situação lamentável é revolta. Revolta, primeiramente, com o descaso do Governo do Distrito Federal, cuja promessa leviana de entregar as obras no dia 1º de dezembro encheu de expectativas alunos que vem recebendo um ensino de péssima qualidade há muitos meses. E, em segundo lugar, revolta diante da (falta de) postura da administração da universidade, especialmente do Grande Timoneiro.

São atitudes como essa que incutem na comunidade acadêmica da Universidade de Brasília a impressão de que a parvoíce, a galhofa e a senilidade são políticas institucionais muito bem sedimentadas.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Uma ameaça chamada Liberdade


"É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que deve ser cuidadosamente racionada." Essa frase é do grande revolucionário Vladimir Lenin - que alguns burgueses reacionários e fascistas teimam em chamar de ditador e assassino - e é, certamente, uma verdade incontestável. Graças a Deus - digo, graças a Marx que essa verdade está, finalmente, penetrando a academia brasileira!

Liberdade é uma coisa boa? Só em doses bem homeopáticas, devidamente regulada a conta-gotas. Do contrário, vira uma coisa horrível, nefasta, que fere a Revolução e os verdadeiros interesses do polvo. Um grande exemplo disso é a pesquisa científica no Brasil: a culpa por ela ser tão ruim é do "excesso de liberdade na escolha dos temas de teses e dissertações produzidas nas academias" (leia mais aqui).

Essa brilhante constatação - a um só tempo genial e progressista - emergiu do I Ciclo Pluriversidade de Debate, ocorrido ontem no campus da UnB de Planaltina. Nas palavras do egrégio sábio Renato Dagnino, da Unicamp, "a livre escolha das universidades é uma barbaridade". Reforçou ainda sua defesa de uma pesquisa científica progressista ao dizer que "esse negócio de cada um faz o que quer tem que terminar".

E não é somente para esse ponto crucial que o bravo camarada Dagnino aponta, não senhores - digo, senhor@s! Insto-os a ler uma entrevista que o camarada Dagnino concedeu ao periódico Monitor Mercantil Digital, disponível na íntegra aqui.

Viva Renato Dagnino!
Viva Lenin!
Pelo fim do excesso de liberdade na academia!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Paraíso na Terra tem nome: UnB


A profecia de Dom Bosco se cumpriu. Muita gente não sabia, mas, graças à Secretaria de Comunicação (SECOM) da UnB, descortina-se a gozosa realidade: o Paraíso existe, é terreno e se chama Universidade de Brasília.

O Portal da UnB publicou uma série de reportagens em homenagem aos dois anos de mandato do reitor José Geraldo de Sousa Junior. Na verdade, reportagem seria um eufemismo: são peças de um finíssimo trabalho midiático, uma mistura muito bem balanceada de lirismo puro e jornalismo dedicado, que perfazem uma justa homenagem ao Grande Timoneiro da UnB.

Gostaria de aqui destacar duas matérias que chamam a si mais atenção por sua sensibilidade: a entrevista do Grande Timoneiro e o relato de um dos jornalistas da SECOM. Alguns trechos da entrevista do reitor são de tal modo tocantes que, advirto-os, podem levá-los às lágrimas:

"Na campanha, eu propus esse projeto com base em alguns eixos que recuperavam a utopia original da universidade: conhecimento de ponta com qualidade; democracia; inclusão; mobilização para enfrentar e resolver os problemas nacionais. Ou seja, conhecimento com responsabilidade. Esses eixos envolviam também pensar uma gestão sustentável, tanto do ponto de vista ecológico quanto das relações interpessoais. Quer dizer, valorizar o reconhecimento da dignidade, da decência do trabalho."
[...]
"Uma série de circunstâncias favoráveis. Por exemplo: a crise moral, política, funcional da Universidade ter chegado a um ponto de tal culminância que não havia solução senão buscar o apaziguamento. São circunstâncias favoráveis o mandato coincidir com a elevada curva de investimentos que foram feitos no ensino superior, tanto de infraestrutura quanto de reestruturação e termos usado esses meios para implementar várias políticas."

Não se acanhem em admitir que, à primeira vista, é trabalho difícil compreender as melífluas palavras do egrégio reitor. Qualquer ímpeto de julgá-las como desprovidas de qualquer coesão ou significado inteligível é mero embuste de nossas mentes tacanhas e primitivas. O que o reitor quer dizer é que passamos por nossa própria Renascença, saindo de um período trevoso para a luz da democracia, do conhecimento e das artes.

Não temos salas sucateadas, nem carteiras apodrecendo, muito menos iluminação precária!
A civilidade impera, as pessoas são educadas, não atrapalham as atividades acadêmicas de seus companheiros de universidade, e não transformam mais os corredores da UnB em depósitos de gente barulhenta cheirando a maconha e cerveja!
As pessoas podem trafegar con tranquilidade por todos os campi sem o risco de serem assaltadas ou estupradas, muito menos de acabarem se tornando vítimas de sequestro-relâmpago!
Nunca se produziu tanta ciência, nunca tivemos uma infraestrutura de ensino tão moderna!

É inegável que uma verdadeira revolução está em curso na universidade. Estamos saindo dos porões da produção e do ensino acadêmicos para o palco principal!

O artigo do jornalista da SECOM é igualmente tocante, mas de modo diverso. Afinal, qualquer pessoa desavisada, ou mal-intencionada, pode acusar os artigos de formarem mera peça de publicidade na velha tradição goebbelsiana. Anátema! Jamais! A espontaneidade das palavras do jornalista apenas corrobora a mais pura verdade: estamos no Paraíso.

"Não via estudantes, professores e técnicos abraçados, como na emocionante luta junto à administração pela manutenção salarial dos servidores, que resultou na greve mais longa da história do país, no primeiro semestre de 2010."
[...]
"Encontrei o diálogo que serviu de base para a construção de um modelo inovador e democrático de gestão compartilhada, onde quem é da UnB – independente do grau de escolaridade ou do tempo de casa – consegue ser ouvido."
[...]
"Encontrei a ética numa gestão transparente, que reduziu drasticamente os gastos, principalmente dos famigerados cartões coorporativos. Na imprensa, a UnB havia saído das páginas policiais. Encontrei portas abertas para os reclames e protestos de uma comunidade participativa e, acima de tudo, fiscalizadora."
[...]
"Como jornalista, prezo, acima de tudo, a ética no meu trabalho. Não sou um criador de ilusões para os leitores nem para os meus chefes. Mas não posso fechar os olhos ao que salta à vista nas caminhadas diárias pelos campi. E é por isso que afirmo: dois anos depois de o professor José Geraldo de Sousa Junior e sua equipe assumirem a administração, a UnB é outra."

Quem não se emociona ao ler essas palavras não pode ter um coração a pulsar no peito. O relato do jornalista é de uma tal sinceridade que se torna impossível não ficar admirado com o trabalho duro, dedicado e indefectível do nosso amado reitor e sua mui tarimbada e dedicada equipe de gestão. E estamos certos de que os próximos dois anos serão tão maravilhosos, coloridos e felizes quanto os que tivemos até agora!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A falácia do financiamento público de pesquisa científica


Ineficiência. Essa tem sido a palavra-chave para definir tudo aquilo que o governo se mete a fazer. Não precisamos ir longe para encontrarmos evidência disso: o último Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) entrou para a história como uma das maiores vergonhas nacionais, e, certamente, mais um vexame para o imenso rol de falcatruas e ingerências do governo Lula.

Um Estado que se propõe a atuar em todas as frentes não conseguirá atuar em nenhuma de maneira eficiente, e o risco de desestabilizar os setores em que atua é grande. Entretanto, as diversas evidências da ineficiência da esfera pública em diversos setores, sobretudo na educação, parecem não ser suficientes para o DCE da Universidade de Brasília, que encabeça agora mais uma campanha delirante: o expurgo de todas as fundações privadas da UnB.

No ano de 2009, o Brasil ocupava a 72º posição no ranking mundial da educação, que é elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Em 2010, o Brasil aparece na 88ª posição. Exatamente: nós caímos dezesseis posições em apenas um ano. Podemos culpar as fundações privadas por isso? Não. Assim como não podemos culpá-las pelos currículos defasados, a falta de infraestrutura física, a falta de livros, a falta de segurança, muito menos o aparelhamento político que tem transformado as unviersidades públicas em balcões de negociatas. Só temos um culpado nessa história: o governo.

Um dos argumentos centrais defendidos pelo DCE/UnB para que as fundações privadas, sobretudo a Finatec, sejam extirpadas da universidade diz que a presença das fundações privadas significa a privatização da educação - um argumento que, de tão estapafúrdio, não merece mais do que umas boas risadas. Outro desses argumentos é o caso de corrupção que acometeu a instituição e que ainda está sob investigação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Curiosamente, ninguém defendeu com a mesma coragem e diletância a dissolução do CESPE quando o escândalo da máfia dos concursos veio à tona.

E o motivo é simples: não se trata câncer no cérebro decapitando o paciente. A garantia de transparência através de fiscalização constante, bem como presença firme e contundente do MPDFT, é, certamente, solução muito mais viável do que dependermos de um Leviatã obeso, que sufoca lentamente sob o próprio peso. Entretanto, no caso das fundações, quanto mais cabeças rolarem, melhor para o DCE/UnB. E, certamente, muito pior será para toda a Universidade de Brasília.

domingo, 7 de novembro de 2010

O professor malvado e o nobre Senescal

Era uma vez, num reino perdido da América do Sul que já fora chamado de Terra de Santa Cruz, um lugar onde se ensinava ciência - universidade, eis como se chamavam tais lugares - que estava passando por uma revolução: a revolução progressista, reformista e muito, muito democrática. Essa revolução estava agitando as bases daquele lugar, transformando o ambiente e as pessoas, trazendo coisas intrigantes, estranhas, até mesmo bizarras, tudo em nome do novo, da mudança, da grande democracia universitária. Aluno felizes, pluralistas e saltitantes ocuparam salas, pintaram paredes, desmobiliaram, mobiliaram, enfim, instalaram-se ao redor da universidade, gritando vivas e urras, louvando os ventos da transformação libertária.

Em meio a toda essa atmosfera de mudança, havia um professor. Esse professor tinha sua própria sala e conduzia seu próprio trabalho, o que envolvia pesquisas nas quais necessitava de silêncio, concentração e ordem de modo que tudo pudesse ocorrer da maneira esperada. Entretanto, esse professor, como ser ranzinza e malvado que era, não gostou das constantes festividades promovidas pelos alegres estudantes na sala ao lado, que havia sido ocupada em meio ao furor da revolução estudantil. Nervoso, o malvado professor, querendo dar o troco nos pobres estudantes felizes, resolveu reclamar às instâncias superiores.

O Príncipe da universidade, e seu prestimoso Senescal, receberam o rabigento e injusto professor em sua sala conferencial. Ali, diante dos dois, o professor esbravejou, gritou, esperneou, urrou, babou, enfim, promovou um escarcéu típico dos mestres irritadiços que não compreendem que a revolução democrática da juventude universitária, tão bem promovida com a anuência do sapientíssimo Príncipe, é muito mais importante e salutar do que pesquisazinhas científicas que nada trarão de libertário e progressista para as pessoas. O Príncipe pareceu se aborrecer, mas nada disse. Entretanto, o Senescal, tão zeloso pela justiça e a ordem e a paz e o amor, com poucas e bravas palavras, arrematou a conversa, desmoralizando o vil professor.

- Professor, o senhor deve ser mais condescendente. Vivemos, agora, em uma democracia.

A vilania do sisudo mestre foi dissolvida instantaneamente pelas palavras nobres do Senescal. Qual cachorrinho que reconhece um erro ante a reprimenda de seu dono, meteu o rabicó entre as pernas e arrastou-se de volta para a sua sala escura e fria e triste, onde, insistentemente, continuava a dar prosseguimento a suas atividades de insignificante importância para a grande revolução democrática universitária progressista, remoendo-se de ódio a cada vez que ouvia os felizes e serelepes estudantes comemorando os bons ventos da mudança.

Qualquer semelhança com qualquer fato real é, evidentemente, mera coincidência coincidente.

domingo, 31 de outubro de 2010

A educação a serviço do polvo

O texto de hoje não é dedicado a falar de um assunto que atinja especificamente a UnB, mas de algo concernente à educação como um todo. Há muitas pessoas que duvidam que o Brasil esteja caminhado, a largos passos, rumo a um regime ditatorial. Argumenta-se que não temos, em verdade, nenhum indício realmente contundente disso. Entretanto, o cotidiano político no País nos dá alertas cada vez mais alarmantes de que essa possibilidade não é algo tão distante assim.

No dia 30 de junho desse ano, foi encaminhado à Ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República uma denúncia contra a obra "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato. De acordo com a denúncia, a obra apresentava conceitos racistas com relação ao negro e à cultura africana. Em um dos trechos, por exemplo, escreve Lobato: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão.” Em outro, diz Emília: "É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne negra." A Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Educação (CNE) reuniu-se para analisar a denúncia, que foi acatada por unanimidade. A decisão foi proferida pelo Parecer CNE/CEB nº 15/2010, de 1º de setembro de 2010.

O autor da denúncia chama-se Antônio Gomes da Costa Neto. Em seu artigo Candomblés de Brasília: contribuição aos estudos dos rituais afro-brasileiros no Distrito Federal, encontramos mais informações sobre Antônio:

Lingüista; Dirigente e Sacerdote do Axé Daomé, Cruzeiro, Distrito Federal; Pesquisador sobre cultura e religião afro-brasileira; Membro do terreiro de Tambor-de-Mina Tenda Espírita Só Deus Pode, na cidade de São Luís, estado do Maranhão, dirigido pela saudosa Sacerdotisa Vodunce Maria José Pinto (1938-2001); atualmente vinculado a Sacerdotisa Vodunce Bernadete Gomes, em São Luís do Maranhão.

Antônio é estudante de mestrado da UnB. Participa do projeto de pesquisa Conhecimentos Ancestrais Africanos: Caminho de fortalecimento para pesquisadores(as) em educação, raça e gênero, coordenado pela Prof.ª Dr.ª Denise Maria Botelho. Denise, além de professora da UnB, também integrou a Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPM), gestão 2008/2010.

O que se pode dizer sobre esse circo? Sem levar em conta o contexto histórico, a importância das obras ou mesmo a contribuição geral de Monteiro Lobato para a sociedade brasileira, procede-se a uma perseguição sistemática a tudo aquilo que fira o frágil conceito de politicamente correto. A esquizofrenia racialista está atingindo patamares que certamente nunca foram antes vistos no País. Tenta-se, a todo custo, nivelar tudo e todos, pavimentando a sociedade da maneira mais vil e mesquinha.

Em breve, outras obras serão, certamente, censuradas. Adiantamos aqui alguns títulos:

Livro: O Cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Motivo: Os mais pobres são mostrados sob uma perspectiva feia, suja e extremamente maliciosa, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Iracema
Autor: José de Alencar
Motivo: Mostra a dominação europeia sobre os indígenas brasileiros de um ponto de vista colonialista e eurocêntrico, dando ares de romance à exploração sexual das índias, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Macunaíma
Autor: Mário de Andrade
Motivo: Trata de maneira achincalhante os índios e os negros, tratando-os de maneira insensível, sarcástica e cruel, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Motivo: Explora a imagem da mulher como criatura infiel, libidinosa, mentirosa e enganadora, reforçando a dominância machista em nossa sociedade, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Os Sertões
Autor: Euclides da Cunha
Motivo: Os nordestinos, nessa obra, são alvo de uma análise profundamente elitista, quase eugênica, em que são mostrados como seres subdesenvolvidos e ignorantes, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Obras como essas deverão ser extirpadas da educação brasileira! Elas ferem os interesses legítimos do polvo! A partir de agora, somente livros que defendam os interesses legítimos do polvo - como Marilena Chauí, Leonardo Boff, Emir Sader e Frei Betto!

Fora escritores elitistas!
Por uma educação progressista a serviço do polvo!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Trote, sangue e leniência na UnB

Na manhã de hoje, quarta-feira, 20 de outubro, um calouro do curso de Engenharia de Redes sofreu um ferimento no queixo em decorrência do trote do qual participava. Teve de ser levado a um hospital, onde levou sete pontos no queixo. Muito indignados, o DCE, a decana de Assuntos Comunitários, Rachel Nunes, e o reitor José Geraldo disseram que vão apurar a responsabilidade no caso.

Sabe o que será feito efetivamente? Nada. E vamos explicar porquê.

Quando o CA de Agronomia promoveu um trote excepcionalmente humilhante no semestre passado - uma das "brincadeiras" era lamber leite condensado de uma linguiça encapada numa camisinha -, a revolta foi geral, e com razão. Qual foi a posição do reitor sobre possíveis punições? Ei-la:

UnB Agência – Por que a preocupação com punição é tão evidente no debate sobre comportamento? Isso é, de alguma forma, uma reprodução da violência aplicada?
Reitor – É um pouco disso que você está colocando. É também uma dificuldade de assumir a pro-atividade de práticas transformadoras. Há uma nostalgia da palmatória numa sociedade ainda muito hierárquica e uma universidade, como escola que é, tem de trabalhar na confiança de que projetos pedagógicos transformam as pessoas. Não é este o mito de Pinóquio, transformar um boneco de pau numa criança por meio da educação? Isso requer atitude e é por isso que estamos apostando nas ações acadêmicas. O que significa uma plataforma pedagógica de orientação, de educação e não de punição.

Isso é de impressionar? Em se tratando de um reitor de uma universidade pública federal, certamente. O que está embutido nessa lógica do reitor é que o aluno pode fazer o que bem entender na UnB que nenhuma, absolutamente nenhuma sanção será aplicada. No caso específico do José Geraldo, um dos mais dedicados defensores do Direito Achado na Lua, é exatamente isso o que se espera: a vitimização do ofensor, a aplicação contumaz do coitadismo sobre o contraventor. E, se essa é a posição do reitor, o que esperar das instâncias inferiores da universidade? Quem irá contradizer nosso Grande Timoneiro?

Ante esse quadro vergonhoso, indaga-se: a UnB está indo para o buraco? A resposta é: não. Já estamos nele.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Liberais e Conservadores

Pessoal,

Passaremos a publicar aqui no blog alguns textos de interesse geral sobre temas políticos, econômicos e sociais. Esses textos coadunam, parcial ou completamente, os princípios que norteiam o pensamento da Juventude Conservadora da UnB com relação aos temas abordados.

O texto a seguir foi publicado no site do Ordem Livre (clique aqui para acessar o artigo), e é de autoria de Rui Albuquerque, doutor em Ciência Política e CEO do Grupo Lusófona - Brasil.

Boa leitura!

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Liberais e Conservadores
Rui Albuquerque

Tenho-me interrogado, ao longo dos anos, se a separação entre liberais e conservadores se justifica, e se eles não podem viver em harmonia e mesmo até numa plena complementaridade de princípios, idéias e valores. Por palavras distintas, a questão é a seguinte: ser liberal impede que se seja conservador e ser conservador exclui que se seja liberal? A minha resposta a esta questão, no fim de contas a mesma, vista embora por dois ângulos distintos, é inequívoca: um liberal nos princípios e nos fundamentos tem que ser politicamente conservador, enquanto que um verdadeiro conservador não poderá deixar de ser um liberal. Tentarei demonstrar, neste artigo, esta minha convicção.

Antes de mais, há alguns equívocos muito antigos e que estão na origem da dissensão, que convém afastar. O primeiro é histórico, e remonta à velha zanga entre whigs e tories do tempo de Gladstone e Disraeli. Na realidade, os dois políticos ingleses da segunda metade do século XIX marcaram, cada um à sua maneira, os então partidos liberal e conservador do seu país. Gladstone foi efetivamente um liberal clássico na política e um dos poucos governantes na história do mundo que aplicou no governo os valores da liberdade em que verdadeiramente acreditava. Ele aboliu a maior parte dos impostos e das taxas que vigoravam na Inglaterra do seu tempo (calcula-se que extinguiu cerca de 95%), abriu as fronteiras do seu país ao comércio internacional, pugnou pela arbitragem nos conflitos de interesses entre os estados em oposição à guerra, e acreditava piamente na ética da responsabilidade individual como cimento construtor de uma ordem social pacífica. Em contrapartida, o líder do partido tory e seu rival de sempre, Benjamin Disraeli, quando primeiro-ministro foi protecionista no comércio internacional, aumentou impostos, criou legislação trabalhista abundante, podendo ser considerado o verdadeiro pai fundador do estado social inglês, provavelmente de toda a Europa. Essa divisão então vincada entre liberais (whigs) e conservadores (tories) marcou profundamente a separação de águas entre as duas famílias políticas, e manteve-se até hoje no espírito de muitos autores conservadores e liberais, ao ponto de Hayek costumar qualificar-se a si próprio como um liberal à "velha maneira whig", remetendo essa definição para o partido whig do tempo de William Gladstone, em contraponto ao espírito conservador e protecionista dos tories de então.

Essa separação profunda de águas já não se justifica nos dias de hoje, e deixou mesmo de fazer qualquer sentido, a partir do fim do primeiro quartel do século XX, com o quase total desaparecimento do Partido Liberal inglês, e a posterior criação do Labour, em 1900, que imediatamente se identificou com o socialismo e o estatismo, e que, acompanhando as tendências da época, acabou por atrair a preferência dos eleitores, substituindo-se aos liberais na oposição ao Partido Conservador. Muitos liberais ingleses voltaram, assim, à casa que fora também sua antes do abandono de Gladstone (que tinha sido dirigente do Partido Conservador, pelo qual chegou a exercer cargos ministeriais no governo de Inglaterra) provocado pela profunda antipatia que ele tinha por Disraeli e pela sua política. E, em boa verdade, a melhor tradição liberal inglesa reencontrou-se nos tories, protagonizada por líderes como Churchill, Thatcher e agora com Cameron, que assentou toda a sua recente campanha eleitoral nos princípios do governo limitado, da responsabilidade individual e da redução da tributação. O aparente renascimento dos LibDem, ainda que seja muito questionável que sejam os herdeiros do espírito whig do passado, acabou por transformar-se numa coligação natural de governo com os conservadores, até agora, pelo que se sabe, a caminhar muito bem.

Outro equívoco igualmente importante, este da responsabilidade dos liberais, resulta da crítica de Hayek editada em jeito de posfácio (Por que não sou conservador) ao seu livro The Constitution of Liberty [A Constituição da Liberdade]. Nesse texto, Hayek dizia afastar-se do conservadorismo essencialmente nos seguintes três aspectos que, segundo ele, caracterizavam os conservadores: em primeiro lugar, o receio da mudança e a tendência que os conservadores manifestam para manterem tudo como está ("A mudança é cansativa", já escrevia Oakeshott...); depois, a "paixão pela autoridade e na sua falta de compreensão das forças econômicas"; e, por último, a hostilidade que eles demonstram em relação ao "internacionalismo", e o decorrente nacionalismo excessivo que os caracteriza em conseqüência dessa aversão ao que é "de fora". Hoje em dia, a maior parte destas críticas cai por terra, desde logo, se atendermos às políticas seguidas nos governos dos três líderes políticos conservadores mais marcantes da segunda metade do século XX: Reagan, Thatcher e Aznar. Qualquer um deles defendeu a liberdade econômica, o comércio internacional, a globalização, e todos contribuíram para mudar o status quo socialista dos seus países e mesmo até da ordem política mundial. Deles poder-se-á dizer muita coisa, mas nunca que tenham sido complacentes ou passivos com as situações políticas que herdaram. A aversão à mudança esteve muito longe de qualquer um dos três.

Um terceiro e último equívoco que tem separado conservadores e liberais, este da inteira responsabilidade dos primeiros, reside na convicção de que o liberalismo é filho da Revolução Francesa e, por isso, que é revolucionário, jacobino e anticlerical. Este grave equívoco, muito provocado pela influência do pensamento revolucionário francês no equivocamente designado "liberalismo" político europeu continental de oitocentos, foi responsável pelo afastamento de muitos conservadores europeus do liberalismo, que preferiram assim aproximar-se de forças políticas conservadoras, como a democracia-cristã, mais próximas de ideais socializantes e intervencionistas do que propriamente da idéia da liberdade e da responsabilidade individual. Seria fastidioso reproduzir aqui, em contraponto a esta convicção, a lista dos liberais clássicos que foram profundamente crentes, muitos deles católicos como Lord Acton e Edmund Burke, ou até mesmo o nosso (português) Alexandre Herculano, que apesar do seu violento anticlericalismo, não desmerece figurar nessa lista, embora muitos outros pudessem ser citados. A questão religiosa que opôs "liberais" aos crentes, sobretudo aos católicos, nalguns países da Europa Continental nos séculos XIX e XX, nada tem a ver com o liberalismo clássico, tão pouco com qualquer idéia de liberdade, e foi resultado da influência revolucionária francesa sobre as mentalidades da época. O liberalismo clássico não é revolucionário, não toma qualquer atitude anticlerical, e rejeita mesmo a idéia revolucionária como forma de transformação da sociedade, contestando os princípios filosóficos do racionalismo cartesiano sobre que ela em boa medida se sustenta. É, aliás, na forma como o liberalismo concebe a ordem social e os processos admissíveis da sua transformação que se encontra, a nosso ver, a principal convergência teórica atual com o conservadorismo.

Na verdade, os conservadores temem a mudança política porque, como bem diz Oakeshott, a função do governo não é a de "sonhar", mas a de "governar". Ou seja, o governo não deve ser um agente de transformação política que projete as convicções ideológicas dos seus titulares, na medida em que isso faria dele um protagonista social, isto é, um agente portador de uma visão de sociedade, eventualmente até majoritária numa certa circunstância temporal, mas que seria sempre passageira e somente representativa de uma parte e não do todo social. Nessa medida, a função do governo, segundo um conservador como Oakeshott, consiste em amainar as paixões políticas dos homens, de si mesmas já muito exaltadas, não "atiçando os fogos do desejo, mas abafando-os". Por outras palavras, o governo deve ser um árbitro da liberdade individual e não um protagonista politicamente vinculado a uma ideologia, um fator de pacificação social em vez de um "instrumento de paixão". Acresce que, segundo Oakeshott, "a única forma adequada de governar é estabelecer e aplicar regras de conduta": o governo não deverá preocupar-se "com pessoas concretas, mas com atividades, e apenas à sua propensão de colidirem com as outras"; não deve utilizar a soberania para a imposição, ainda que democraticamente sufragada, de um modelo de sociedade, aquilo a que designou de "desígnio amplo" da política dos governos atuais. Não estamos, por conseguinte, muito distantes do que Hayek considerava ser também a função ordenadora do governo e do direito, quando falava nas "regras de justa conduta" com caráter geral e abstrato. Para todos os efeitos, quer os conservadores quer os liberais, pelo menos nas abordagens dos dois autores referidos, entendem que a função social do governo não consiste em intervir em situações particulares, das quais não tem efetivo conhecimento nem domínio de todos os aspectos relevantes, mas criar as condições necessárias e suficientes para o exercício da liberdade individual. Estamos, assim, no domínio do estado mínimo, que não desagrada propriamente aos liberais.

Se não subsistem, como vimos, impedimentos impossíveis de serem dirimidos entre liberais e conservadores acerca da natureza e das funções do governo, há que convir igualmente que os conservadores têm sido, nos últimos anos, muito sensíveis à teoria econômica liberal, concretamente à sua defesa da propriedade, da liberdade de comércio e do minimalismo intervencionista estatal. Em contrapartida, têm os liberais muito a aprender com a visão pessimista, ou melhor, realista, que os conservadores têm do gênero humano e da política. Esta pode facultar-lhes, a meu ver, um plus de análise política da qual muitas vezes se costumam inadvertidamente distanciar e que muita falta lhes faz.

Na verdade, a convicção liberal de que as sociedades humanas não são teatros permanentes de guerra hobbesiana e que a cooperação e a sociabilidade são naturais aos homens, não exclui a dimensão política da vida humana, nomeadamente a ambição do poder e a permanente luta pela conquista do domínio que a soberania faculta. Mais ainda: a análise liberal do comportamento humano em sociedade remete muitas vezes para segundo plano, quando não ignora, a função do domínio político e a importância do seu aparelho monopolista que é o estado, na verdade o verdadeiro inimigo da liberdade. É certo que os liberais descrevem a dinâmica natural das sociedades humanas, mas a existência do liberalismo só tem justificação na medida em que nessa dinâmica passou a interferir um corpo estranho, um intermediário entre a ação individual que é o estado constituído pelos seus órgãos executivos de governo e de administração. Por outro lado, a História ensina-nos que a presença do político, da soberania, por outras palavras, do estado, é imanente às sociedades humanas, seja qual for o estágio da sua evolução, ou as latitudes que analisemos. A análise liberal não pode prescindir dela, ou melhor, só se justifica pela sua existência, já que sem política as ameaças à liberdade não nasceriam da soberania.

Ora, a isto os conservadores respondem com uma análise realista do poder político. Segundo eles, a política não se justifica nas cores com que os políticos pintam os cenários floreados das suas propostas, mas apenas na pura e dura ambição pelo poder, a sua conquista e manutenção a qualquer preço. Ainda que esta regra comporte exceções e que admitamos existirem políticos verdadeiramente sérios nas suas intenções, nada garante que da transformação das suas convicções em políticas governativas possam resultar benefícios para os indivíduos e para a sociedade. Por conseguinte, conservadores como Oakeshott defendem, e muito bem, que o governo não serve para realizar os "ideais" dos políticos que o conquistam, mas apenas e só para "governar", no sentido acima descrito desta palavra.

O pensamento liberal terá, então, assinaláveis vantagens em aproximar-se do realismo político conservador. O conhecimento do inimigo, de resto a primeira regra da política, apenas o beneficiará quando procurar cumprir a sua principal finalidade, que é a de aumentar ao máximo possível a liberdade individual perante o estado que quase sempre se esforça por diminuí-la.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Baltasar Garzón e o revanchismo na UnB

O juiz espanhol Baltasar Garzón ficou mundialmente conhecido por ser responsável pela prisão domiciliar do ex-ditador Augusto Pinochet, nos idos de 1998 - prisão essa que durou mais de 500 dias. O gesto de ousadia - e, na opinião de muitos, extrema coragem - do juiz espanhol lhe rendeu fama internacional. Não raro, seu nome é citado em círculos particularmente progressistas como um bravo paladino da Justiça - assim como Protógenes Queiroz, delegado da Polícia Federal que recorreu a grampos ilegais com auxílio de agentes da ABIN na Operação Satiagraha e que foi eleito deputado federal pelo PC do B graças à votação recorde de Tiririca, seu mui estimado companheiro de coligação.
O magistrado espanhol fará a palestra "Direito à memória e à verdade: Justiça de Transição" na próxima quarta-feira, dia 13 de outubro, às 19h00, no Anfiteatro 12 do ICC Norte. Em virtude de sua visita, a Prof.ª Maria Jandyra Cavalcanti Cunha, PhD, publicou hoje um artigo no Portal da UnB intitulado: "Quando teremos um Baltasar Garzón no Brasil?". O artigo, como bem se pode supor, é uma ode em prosa à admirável galhardia do magistrado espanhol em perseguir, onde quer que seja, os responsáveis por violações dos direitos humanos, especialmente aqueles que o fizeram quando agentes do Estado em regimes ditatoriais e de exceção.
Entretanto, pedimos licença à ilustre professora e a nossos leitores para colocarmos aqui o nosso ponto de vista.
Em outubro de 2008, Baltasar Garzón decidiu investigar crimes de guerra do governo Franco. Para tanto, mandou abrir duas covas coletivas que suspostamente guardavam restos mortais de vítimas do regime para exumação dos corpos e investigação dos crimes. Entretanto, essa decisão feriu de modo expresso a legislação espanhola, especialmente a Lei de Anistia que fez parte da reforma política espanhola de 1977. Há alguns meses, em abril de 2010, a Suprema Corte da Espanha aceitou três acusações criminais de prevaricação contra o magistrado. Garzón foi suspenso pela Suprema Corte no dia 14 de maio, devendo manter-se afastado da magistratura até que seja julgado pelo tribunal.
Esse esforço do juiz em ir contra a Lei de Anistia espanhola é bastante semelhante àquele visto no Brasil nos últimos anos. Há um número considerável de pessoas que defendem que a Lei de Anistia deve ser revista, e que ex-agentes do Estado que torturaram e assassinaram devam ser processados por crimes de lesa-humanidade. O STF já se pronunciou a respeito em 29 de abril de 2010, quando julgou improcedente ação apresentada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que contestava a Lei da Anistia (lei n.º 6.683/79). Uma das medidas mais expressivas no sentido de acabar com a Lei da Anistia é a instauração da Comissão Nacional da Verdade, um dos pontos-chave do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3).
O que é interessante observar é que os crimes de lesa-humanidade não foram cometidos apenas por agentes do Estado repressor. Aqueles que optaram pela luta armada - que, ao contrário do espírito democrático que lhe costuram, queria derrubar o governo militar para instaurar no Brasil uma ditadura comunista, no molde soviético-cubano - também cometeram crimes de lesa-humanidade, como tortura e assassinato. Poucas vítimas dos guerrilheiros eram, de fato, ligadas ao governo militar. David Cuthberg, 19 anos, marinheiro inglês que estava em visita ao Rio de Janeiro para as comemorações dos 150 anos da Independência do Brasil, foi assassinado em 5 de fevereiro de 1972 (leia aqui sobre o caso). E esse foi apenas um dentre centenas de crimes. Quando se fala da revogação da Lei de Anistia e da instauração da Comissão Nacional da Verdade, não se fala em processar todos aqueles que cometeram crimes durante do Regime Militar no País, mas tão-somente em punição para os ex-agentes do Estado. A bem da verdade, não se trata de resgate da memória nacional e de consolidação da democracia: trata-se de revanchismo, de puro espírito reacionário.
Nesse contexto, Baltasar Garzón é um grande expoente desse espírito, um dos maiores representantes daqueles que, agora instalados no poder, anseiam por desrespeitar a lei e ir à forra contra seus antigos algozes. "Quando teremos um Baltasar Garzón no Brasil?", indaga a Prof.ª Jandyra no título de seu artigo. Não sabemos se, um dia, surgirá algum, mas sabemos quando queremos que ele surja: NUNCA.

domingo, 10 de outubro de 2010

Doutrinação e UnB: tudo a ver

No dia 20 de julho, publicamos aqui no blog uma denúncia de doutrinação político-ideológica em sala de aula. Casos como esse são relativamente difíceis de presenciar em alguns cursos, como Administração e Engenharia Elétrica, mas abundantes em outros - há casos de professores fazerem os alunos se erguerem de suas carteiras e, pasmem, cantar o hino do MST antes das aulas! Ao que tudo indica, no entanto, esse processo de aparelhamento ideológico e sistemático proselitismo político em sala de aula, por parte de professores academicamente desonestos, está se alastrando com rapidez.

Mais um caso desses aconteceu na semana passada, no dia 5 de outubro. O local: sala BT 260, no ICC. Horário: 19h00. Disciplina: Governo e Administração no Brasil (GAB). A ementa da disciplina, de acordo com o sistema Matriculaweb da UnB, é a seguinte:

ORIGENS DO GOVERNO E DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NO BRASIL. A ORGANIZAÇÃO DOS PODERES. ESTADO E GOVERNO. FUNDAMENTOS, PRINCÍPIOS E FUNÇÕES DO SETOR PÚBLICO. ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO. FATORES CULTURAIS E SUA INTERFERÊNCIA NA ADMINSTRAÇÃO. A MODERNIZAÇÃO DO ESTADO. CONCENTRAÇÃO E DESCONCENTRAÇÃO FEDERAL, ESTADUAL E MUNICIPAL.

A professora que ministra as aulas da disciplina é formada em História pelo UniCEUB, com Mestrado e Doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Trata-se, portanto, de pessoa aparentemente dotada de alta capacidade técnica para conduzir o curso ao longo do semestre.

A aula começou com uma apresentação rápida dos conceitos de pátria, nação e povo. Em seguida, a professora informou que, para tratar do conceito de território, os alunos leriam e discutiriam um texto sobre o assunto. O texto em questão é intitulado "Globalização e Território", de Tânia Bacelar, e foi publicado originalmente na revista Le Monde Diplomatique (o artigo pode ser acessado na íntegra clicando aqui). A ideia central do texto é a de que o processo de globalização é o processo de internacionalização do capital financeiro, e que essa internacionalização é a grande responsável pelo crescimento da desigualdade em todo o mundo. Alguns trechos particularmente emblemáticos são reproduzidos abaixo (as seções em negrito são grifos nossos):

A palavra globalização é um neologismo: só aparece na literatura na década de 1980. Mas, como demonstra François Chesnais, a globalização é uma etapa específica, muito avançada, do velho processo de internacionalização do capital.
[...]
Quando o pacto colonial se tornou um obstáculo ao processo de internacionalização, ele foi derrubado, e no Brasil isso se expressa na chamada abertura dos portos, em 1808. No século XX, o Brasil reafirmou sua inserção, subordinando-se à internacionalização do capital produtivo industrial.
[...]
Para mim, quem melhor explicou o papel estruturante da internacionalização para o capitalismo foi Karl Marx.
[...]
Quem produz o tênis Nike são milhares de pequenas empresas situadas na Ásia. A corporação compra esses tênis e agrega 'emoção'. Aí, quem compra o tênis Nike compra junto a 'emoção' de poder usar um calçado de 700, 800 reais, que, na verdade, pelo custo material de produção, não vale isso.
[...]
O comando do processo está na tríade Estados Unidos–Japão–União Européia. Então, ao contrário do que muitas vezes se afirma, os grandes condutores do processo têm nome e endereço.
[...]
A seguir, vêm os países médios, que tentam influir em sua inserção. Alguns o conseguem; outros, não. Um exemplo de país que consegue é a China. A China consegue por vários motivos. Primeiro, porque é um país milenar. Já era uma potência antes do advento do capitalismo, um dos lugares que tinham desenvolvido de maneira mais expressiva as forças produtivas. Com a colonização perdeu espaço, foi dominada e virou a 'casa da mãe Joana': sucessivamente ocupada, ou seja, lugar onde todo mundo manda. Aí ocorreu a revolução e a China passou por uma importante fase de autonomia. Este é o segundo motivo de seu sucesso atual. Uma das coisas que mais me impressionou foi uma entrevista a que assisti no dia da morte de Mao Tsé tung. O repórter chegou junto de um velhinho que estava chorando na beira da calçada e perguntou: 'O que Mao legou à China?'. O velhinho não falou de socialismo. Ele disse: 'Mao recolocou a China de pé'. Ou seja, com o trancamento, a China deixou de ser a casa da mãe Joana e passou a se sentir dona de seu próprio destino. E aí está o terceiro motivo: o processo de reinserção da China ocorre num estágio muito avançado da globalização e está sendo conduzido sob o comando do Partido Comunista Chinês. Isso assegura uma reinserção muito mais autônoma do que a de países como o Brasil, que também é de porte médio, mas engatou no processo de globalização no século XVI, como colônia de exploração, e tem, até hoje, uma enorme dificuldade de atuar com soberania.

Após a leitura dessa excelente peça de publicidade esquerdóide, a professora abriu a discussão para a turma. Enquanto o tal processo de internacionalização do capital colocado pelo texto era discutido, a professora fez um comentário interessante: "esse processo é visível em muitas áreas, como nessa questão da mídia". Essa menção interessante provocou a pergunta fatal: o que a professora achava dessa confusão recente sobre liberdade de imprensa e "golpismo midiático"?

Para responder a essa indagação, a professora remontou ao século V d.C., quando a Igreja Católica começou, de acordo com ela, um processo de desalfabetização da população - um processo que durou mais de mil anos, indo até o século XVI. A invenção da prensa, por Johannes Gutenberg, marcou o fim desse processo. Em seguida, mencionou rapidamente o surgimento dos jornais, nos cafés franceses, e seu papel social de contestação. Foi então que veio a grande cartada: a partir da década de 1960, os jornais começaram a ser comprados por grandes empresas familiares, perdendo seu caráter legítimo de contestação e se tornando meros instrumentos a serviço dos interesses dos grupos econômicos que os controlavam. Trocando em miúdos: se algum grande jornal critica o governo, não o faz por que aquilo seja errado, mas por motivos meramente financeiros. Uma das frases mais curiosas dessa explanação foi a afirmação categórica de que "se você quiser saber o que pensa o PSDB, leia a Folha de São Paulo".

Diante de todo esse desfile alegórico de bestialidades ideológicas, não há outra postura que não seja a mais pura indignação. Além de utilizar o texto de uma acadêmica que apóia declaradamente um grupo como o MST (leia aqui), de fortíssimas tendências criminosas, a professora ainda planta sub-repticiamente um raciocínio perverso: como os jornais representam apenas interesses econômicos, não podem ser verdadeiramente considerados órgãos de imprensa, e, portanto, o princípio de liberdade de imprensa não se aplica a eles. O viés autoritário dessa lógica é claro como cristal.

Todo esse circo totalitário estimulou uma pequena pesquisa na internet sobre a professora. O resultado, longe de ser surpreendente, foi revelador: a professora é integrante da facção O Trabalho (OT), do Partido dos Trabalhadores (PT), de orientação trotskista. Em 2007, a OT publicou um documento intitulado "13 Pontos para uma Plataforma de Soberania Nacional" para o 3º Congresso do PT. A professora é uma das integrantes da OT que subscreve o documento.

Não aceitaremos situações como essa sem uma reação adequada. Todo aluno tem o direito de ter uma aula plural, com o consórcio de ideias diversas e divergentes, para que o conhecimento construído em sala de aula possa ser o menos enviesado possível - do contrário, não se está fazendo ciência, mas apenas um exercício de sectarismo político. E, se esse é um direito do aluno, esse é o dever sagrado e cívico de todo professor.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Greve, vagabundagem e perseguição na UnB

No dia 21 de setembro, os servidores da UnB, em assembleia, decidiram, em votação unânime, retomarem as atividades que haviam sido interrompidas no dia 16 de março. Foi a greve mais longa da história do País, totalizando seis meses e uma semana (ou 187 dias). O retorno às atividades foi decidido após a Ministra Carmen Lúcia, do STF, ter concedido liminar, no dia 16 de setembro, que garantia o pagamento da URP a todos os servidores técnico-administrativos da mesma forma como era feito antes de todo esse imbróglio.

No dia 20 de setembro, a Advocacia-Geral da União (AGU) encaminhou parecer à UnB onde determinava que o pagamento da URP teria de ser feito com base nos vencimentos de 2005 e apenas aos trabalhadores sindicalizados. O Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub), ante o parecer da AGU, encaminhou contestação e convocou nova assembleia para o dia 28 de setembro, ontem, em que seria decidido a possível retomada da greve. Durante a assembleia, a secretária de Recursos Humanos da UnB, Gilca Starling, leu a resposta da AGU à contestação: os pagamentos deveriam ser feitos com base nos vencimentos atuais e para todos os funcionários. Apesar de resolvido o problema, a assembleia do Sintfub decidiu pela retomada da greve.

Diante de toda essa novela interminável, muitas críticas foram feitas contra os servidores. Um dos maiores críticos da greve foi o Prof. Marcelo Hermes-Lima, do Instituto de Biologia. Em seu blog, sempre foi crítico contumaz do movimento grevista. Expressando sua opinião sobre a greve, disse:

O pior dessa estória, é que cerca de metade dos funcionários da UnB não entram em greve. Mas eles precisam trabalhar dobrado para suprir as necessidades do serviço na universidade, já que a outra metade da tchurma (Los Vagabundos) está jogando baralho ou de férias permanentes em Maceió!

A reação às críticas do Prof. Marcelo foi, no mínimo, emblemática: ameaçaram sua integridade física. Sabe o clássico "te pego na saída", típico da turma do valentão da classe no colégio? Exatamente isso. Como se não bastasse o destempero e o despropósito dessa ameaça, foi divulgado que se pretende entrar com uma ação judicial contra o Prof. Marcelo por calúnia, injúria e difamação. O curioso mesmo é que o Prof. Marcelo não foi o primeiro - nem o único - a falar sobre isso. Leiam a declaração abaixo.

Quando eu entrava em greve, eu sabia que a cada dia de greve eu perdia o domingo. Eu sabia que com um determinado número de dias de greve eu perdia o Fundo de Garantia, eu perdia o 13º, eu perdia as férias. Então, quando eu determinava uma greve, eu sabia que era uma disputa em que eu podia ganhar e podia perder. Mas algumas categorias entram em greve e ficam 40, 50, 60, 80, 90, 100 dias de greve e recebem o pagamento. Você pode chamar isso de greve? Não. Isso, na verdade, são férias, na minha concepção sindical.


Quem fez essas declarações? Ninguém menos que o presidente Lula, que, vale lembrar, foi líder sindicalista. Uma pergunta que se impõe é: será que os servidores que ameaçaram o Prof. Marcelo também pretendem atacar fisicamente o Lula? Será que também pretendem processá-lo por calúnia, injúria e difamação?

Diante desse quadro alarmante, gostaríamos de ressuscitar uma pensadora que é, no geral, desconhecida e ignorada pela maioria das pessoas, mas que se configurou numa das maiores personalidades do século XX: Ayn Rand. A real natureza que permeia a ameaça à vida e à integridade do Prof. Marcelo foi bem explanada pela filósofa na seguinte afirmação:

"Nenhum homem - ou grupo, ou sociedade, ou governo - possui o direito de assumir o papel de um criminoso e começar a utilização da compulsão física contra qualquer homem. Os homens têm direito de usar a força física apenas em retaliação e apenas contra aqueles que iniciam seu uso. O princípio ético envolvido é simples e bem definido: é a diferença entre assassinato e legítima defesa. Um assaltante procura ganhar um valor ou riqueza matando sua vítima; a vítima não fica mais rica matando o assaltante. O princípio é: nenhum homem pode obter qualquer valor de outro recorrendo à força física." (RAND, Ayn. A virtude do egoísmo. São Paulo: Ortiz, 1991, p. 44)

A Juventude Conservadora da UnB presta seu incondicional apoio ao Prof. Marcelo Hermes-Lima e a todos aqueles que, em virtude da defesa de ideias que ameaçam o establishment ideológico em nossas universidades, são ameaçados e perseguidos, seja de maneira ilegal e imoral, seja com a interveniência do Estado.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

UnB: terra sem lei

Pessoal,

Temos reiteradamente publicado e divulgado ocorrências de violência dentro do campus Darcy Ribeiro. Temos igualmente alertado para o caos generalizado que se instalou na universidade e denunciado repetidamente a pasmaceira e a omissão da Reitoria. Pois bem: a UnB foi, infelizmente, palco de mais um ato de violência. Recebemos, por e-mail, o relato da vítima, uma estudante de Psicologia.

Voltamos a repetir aquela pergunta que não quer calar: será que a Reitoria vai esperar alguém morrer para tomar alguma providência?

Reproduzimos abaixo o relato da estudante.

À comunidade da UnB, à direção do Instituto de Psicologia, à prefeitura do campus.

Escrevo para contar/alertar/desabafar que hoje, segunda-feira, 20/09/2010, por volta de 20h10, quase fui vítima de um assalto à mão armada, do qual escapei por pouco, dentro do Campus.

Uma amiga (recém-formada pela Psicologia) e eu havíamos saído no meu carro às 18h do ICC e deixamos seu carro estacionado. Ao retornar à UnB poucos minutos depois das 20h, deixei-a em seu carro e subi o estacionamento, tomando o primeiro balão (sentido sul-norte) bem em frente ao Multiuso, e pegando a rua de mão única e mal iluminada que liga o Campus à L3.

Um carro que vinha atrás de mim me ultrapassou pela esquerda, forçando meu carro contra o canteiro até me fechar completamente e me obrigar a parar. Cheguei a abaixar o meu vidro porque na confusão e no escuro acho que pensei que queriam informação. No banco do passageiro um homem armado gritava mandando “para o carro ou morre”. Estacionaram à frente do meu, o homem desceu do carro e veio na minha direção, empunhando a arma. Consegui escapar engatando a ré e acelerando tudo que pude até o referido balão. Vi o homem voltando pro carro, que acelerou.

Não consegui checar a placa ou o modelo do carro – apenas que era um carro preto, parecido com um astra (ou um carro sedan de médio porte, não tenho certeza) com vidros fumê muito escuros. Não sei se havia mais alguém além do motorista e do homem que desceu do carro – este era branco, de estatura média, magro, e estava vestido com camiseta e calça escuras.

Quando voltei à rua paralela ao estacionamento (que passa à frente do Banco do Brasil e do RU), avistei uma viatura da polícia, fui até eles e contei o que pude sobre o acontecido. Estava muito nervosa e tremendo, e não consegui me lembrar de todos os detalhes relatados aqui. Liguei pra minha amiga e ela estava tranquila, a caminho de casa.

Mando este e-mail como um alerta para todos e principalmente todas que frequentam a UnB à noite, mas também como um desabafo. Recentemente uma professora grávida foi assaltada à mão armada. Há meia hora quase foi minha vez. Isso não pode continuar, simplesmente. Por agora nem sei mais o que dizer.

Agora estou bem, em casa, imaginando onde e como estaria se por acaso meu carro tivesse morrido, se não tivesse acelerado na ré com tanta força, se o cara tivesse disparado, se, se, se.

Abraço a todxs.

Thessa Guimarães
Graduanda de Psicologia da Universidade de Brasília

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Eleições, marketing e greve na UnB

Hoje, dia 21 de setembro, após mais de seis meses de paralisação, os servidores da UnB deram fim à mais longa greve da história do País. Durante esse seis meses de paralisação, os serviços mais básicos da universidade - Biblioteca Central dos Estudantes (BCE), Restaurante Universitário (RU), almoxarifado, secretarias de curso, dentre outros - não funcionaram, ou funcionaram de maneira bastante precária, prejudicando um universo de cerca de 30 mil alunos. O semestre correu aos trancos e barrancos, como todos bem sabem. Esse texto não pretende, entretanto, entrar no mérito da greve, mas abordar um fato muito interessante- e, de certa maneira, emblemático - que ocorreu durante a paralisação dos servidores da UnB.

Em sua propaganda eleitoral exibida na TV no dia 24 de agosto (para vê-la na íntegra, clique aqui), cujo tema foi educação, os atores contratados pela equipe de marketing falam às câmeras enquanto caminham por entre estantes de livros. Quem é aluno da UnB, certamente deve ter achado o ambiente, no mínimo, familiar. Qualquer semelhança não é mera coincidência: as prateleiras por entre as quais os atores caminham são da BCE. O fato foi notícia na imprensa.

Uma pergunta não pode deixar de ser feita: por que Dilma Rousseff é mais especial do que os 30 mil estudantes da Universidade de Brasília? O que tem de tão especial a candidata de Lula que, magicamente, garante-lhe preferência de acesso à BCE em detrimento dos alunos da universidade? A resposta não se encontra unicamente na candidata em questão, mas no chefe da administração da UnB: o reitor José Geraldo de Sousa Júnior.

O prof. Sidio Rosa de Mesquita Júnior, da Faculdade de Direito da UnB, publicou recentemente em seu blog um pequeno texto acerca desse fato, no mínimo, bizarro. Gostaríamos de destacar um trecho particularmente esclarecedor de seu texto:

A UnB está na maior greve de toda história do Brasil, sem que alunos carentes tenham acesso à sua Biblioteca Central, mas a candidata do PT teve acesso a ela para fazer campanha eleitoral, evidenciando que a UnB é mais um instrumento político para piorar este país (o qual vai muito mal).

A Universidade de Brasília deixou de ser uma instituição pública de ensino superior. Ela pode parecer isso, mas somente de longe, de muito longe. De perto, o que se vê é muito mais do que o simples aparelhamento político-ideológico da instituição (como se isso fosse um probleminha!): o que se vê é a deformação, em último grau, da razão de ser de uma universidade pública federal. O que pensar de uma instituição em que os estudantes são preteridos em favor de uma candidata em período de campanha eleitoral - e, pior, a candidata do governo, aquele que supostamente deveria zelar pela qualidade na educação?

Qual é o recado que a Reitoria e o movimento grevista mandou com esse "pequeno" gesto de apreço por Dilma Rousseff? Que nós, estudantes da universidade, não temos importância alguma. Em momento algum, o reitor, ou qualquer outro membro da Administração da universidade, levantou a voz em favor do estudantado da UnB. O que houve, além de um pesado e amargo silêncio conivente, foram reiteradas manifestações de apoio à greve dos servidores. Só que, como se pôde ver, a greve foi bastante flexível, ao contrário do que se pregava desde o começo pelo próprio movimento grevista. Enquanto muitos alunos tiveram de se virar como podiam para dar prosseguimento a seus estudos - não foram poucos os que tiveram que comprar os livros utilizados durante o semestre em virtude do fechamento da BCE -, a equipe da campanha de Dilma teve acesso irrestrito à biblioteca.

São atitudes como essa que provam não apenas o caráter real de quem está à frente da administração da UnB, mas também o grau de contumaz mutilação da qual nós, membros da comunidade acadêmica da universidade, temos sido vítimas. A UnB de antes, que dava orgulho a todos, é apenas uma lembrança, quase uma ilusão. Hoje, não passa de uma grande piada. E de mau gosto.

sábado, 18 de setembro de 2010

Medo, vulnerabilidade pessoal e segurança na UnB

Caros(as),

Retomo a cena política institucional de nossa Universidade, a despeito de hoje ser co-gestor de uma unidade, para não perder de vista um dos temas fundamentais que me motivaram estar nesta universidade: o ser humano! E volto a me posicionar, como sempre fiz, como cidadão e professor individualizado...

Desde o dia 02/09/2010 que venho me incomodando, inicialmente com a minha “letargia política pessoal” sobre este tema em particular, porém, neste exato momento, me dou conta de “uma certa letargia social construída” em nossa universidade.

Sem querer explorar em demasiado o caso que informei – ou mais que isto, que me incomodou, posto que é pessoa de minhas relações afetivas (mote principal, a meu ver, das relações humanas, até para preservar a pessoa), mas não posso ser conivente com o que aconteceu, com o que tem se descortinado a partir do evento, dos discursos usados, repetidos e construídos, e, infelizmente, da absoluta fragilidade com que, nós seres humanos, estamos submetidos frente a outros – considerados marginais – e a “política do avestruz consciente”.

Assim, gostaria de trazer à balia não “mais um caso particular num universo de 40.000 pessoas”, mas a fragilidade de todos(as) nós diante da violência que grassa nossa sociedade e que está, infelizmente, aumentando exponencialmente na nossa universidade. O meu mote é, como bem disse uma professora, colega nossa, “a dor de um é a dor de todos”!

Os pequenos furtos, os roubos de equipamentos, os arrombamentos de carros, os roubos de pneus e estepes, os estupros, as batidas de carro, os estacionamentos irregulares, todos, absolutamente todos, são contextos de criminalidade que povoam nossa universidade, infelizmente. E digo isto não apenas por mero discurso “panfletário-ideológico”, mas de constatação – infelizmente – diária.

Gostaria de dizer, pela minha militância e posicionamentos políticos nos últimos anos, que não quero fazer deste tema mais uma “plataforma de agitação”, mas não posso – ou não devo, e não quero – me calar diante de nossas fragilidades pessoais e contextuais. Afinal, “o próximo pode ser eu” e, em certo sentido psicanalítico, não posso me furtar às angústias do desamparo, do medo e da fragilidade enquanto ser humano.

Digo tudo isto, para socializar e denunciar o que ouvi nestes dias sobre o evento de um assalto a mão armada de uma professora grávida em plena luz do dia no nosso campus! E, para não ser prolixo, finalizando, apenas vou citar informações e frases que ouvi – e que me estarreceram pelos parcos princípios próprios – diante de fato tão grave:

1. “O caso (denunciado) não é o único da UnB”. Segundo autoridades de segurança, especialmente delegados de polícia, na UnB, cerca de seis casos deste tipo ocorrem todos dias (ou seja, no mínimo, 150 por mês?);

2. “As condições de apoio na UnB são precárias (seja de segurança policial seja patrimonial)”, com a polícia não tendo aparato para “atender a todos os casos” e “os nossos vigilantes (que por certo não são seguranças) não têm preparo para tal"(“aqui estão para proteger o patrimônio físico”);

3. “Foram feitas três ligações (e não é preciso falar do estado emocional da situação, por certo) e, meia hora depois, ninguém deu qualquer apoio ou orientação”!

4. “A UnB é uma cidade e como tal está sujeita às mesmas mazelas da sociedade”! E??

5. “Estamos licitando, contratando consultorias, fazendo reuniões de conselho de segurança, discutindo a situação, pois ela é complexa”! Qual o limite temporal? O de uma tragédia – que está se anunciando – e que será “justificada, entendida e apoiada moralmente” na sua conseqüência final?

6. “Este é o quinto caso de uso de arma na UnB, mas isto não corresponde aos índices do DF”! Puxa! Não sabia dos índices, ou pior, talvez não queira saber que uma pessoa estivesse tão exposta!

7. “Estamos iluminando o campus, pavimentando calçadas, cuidando de setores vulneráveis primeiro e licitando ações”... Qual o privilégio da minha vida – da nossa vida – neste processo (e sem apelações sensacionalistas, hem)?

8. “Vamos fazer uma reunião para discutir a complexidade da situação para encaminharmos as melhores soluções possíveis!” Esperando o quê? “A porta arrombada?”, posto que carros, pessoas estupradas e drogadas já são vítimas correntes?

9. Etc... Que me furto de continuar enumerando, denunciando, angustiando...

Enfim, volto à frase da professora amiga: “a dor de um é a dor de todos”: roubados, lesados, agredidos, estuprados, drogados, violentados, assustados, traumatizados na sua esperança de “ir e vir” com tranqüilidade ou na sua humanidade e direito essenciais.

Até quando?

Quando vamos de fato discutir “nossas fragilidades e desamparos pessoais” no contexto de nossa universidade, local de trabalho privilegiado pelo nosso desejo? Isto sem querer enfatizar questões de gênero, de fragilidades físicas, de idade, de (ingenu)idades, de (des)proteção, da nossa comunidade interna e da que, no nosso caso da Psicologia, em especial, é o nosso foco principal: a comunidade externa que vem, à noite, receber nossos serviços...

Cronos será a medida para Eros e Caos? Ou (re)consideraremos Eros e Ananke pais da civilização humana?

Prof. Ileno Izídio da Costa
Departamento de Psicologia Clínica da UnB

Próximo post: Eleições, marketing e greve na UnB.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dez princípios conservadores

Quando a Juventude Conservadora da UnB iniciou-se, muito se falou a respeito de seu nome. A denominação conservador tem, desde muito tempo - especialmente no Brasil -, sido associada a conceitos, pensamentos e ideários político-sociais nada benfazejos. Quando se pensa em um sujeito conservador, normalmente se pensa em uma pessoa com concepções profundamente preconceituosas a respeito da realidade, algo que se manifesta numa espécie de tríade maldita: racismo, machismo e fascismo. O nome para nosso grupo não foi, entretanto, escolhido ao acaso. Pelo contrário: foi justamente pensando que essa associação seria feita que nos intitulamos Juventude Conservadora. Foi um teaser, um termo que, servindo de agent provocateur, suscitaria discussões e mexeria com os brios dos que se apressam em dizer que são progressistas e democratas.

Entretanto, a denominação de conservador não foi escolhida única e exclusivamente para causar alvoroço - e, a partir desse alvoroço, estimular uma discussão verdadeiramente democrática sobre ideias e posicionamentos de toda sorte, notadamente os de ordem política. Ela também reflete, e de maneira pertinente, a postura dos membros do grupo frente aos assuntos que afetam não apenas os membros da comunidade acadêmica da Universidade de Brasília, mas a todos os brasileiros. Nesse contexto, é bastante pertinente esmiuçar o que vem a ser uma pessoa conservadora.

O pensador norteamericano Russell Kirk (1918-1994) foi um dos maiores pensadores dos século XX. Filósofo, crítico social e literário, além de escritor e historiador, Kirk ficou famoso por seu livro The Conservative Mind (1953), que norteou o pensamento conservador pós-Segunda Guerra nos EUA e dava ênfase especial às ideias do político irlandês Edmund Burke (1729-1797). Em seu livro The Politcs of Prudence (1993), Kirk enumera dez princípios que podem ser observados no pensamento conservador como um todo. São eles:


1) O conservador crê que existe uma ordem moral duradoura.

2) O conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade.

3) O conservador acredita no princípio do preestabelecimento.

4) O conservador é guiado pelo princípio da prudência.

5) O conservador está atento ao princípio da variedade.

6) O conservador é refreado pelo princípio da imperfectibilidade.

7) O conservador acredita que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas.

8) O conservador promove comunidade voluntárias e se opõe ao coletivismo involuntário.

9) O conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas.

10) O conservador compreende que a estabilidade e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade robusta.

Para compreender melhor cada um desses princípios, recomendamos a leitura do texto completo, que pode ser encontrado aqui.

Próximo post: Medo, vulnerabilidade pessoal e segurança na UnB.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O espetáculo circense dos Direitos Humanos e o papel da UnB

O tema de direitos humanos têm, ao longo dos anos, ganhado bastante notoriedade no País. E isso é excelente. Arbitrariedades contra os direitos mais básicos das pessoas são cometidas todos os dias, implícita ou explicitamente, atos que se configuram sérias ameaças à integridade física, moral e psicológica da população. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, é o documento-base de defesa dos direitos humanos ao redor do mundo. Entretanto, o tema tem sido utilizado de maneira criminosa para, ao invés de proteger, subverter e ameaçar os direitos mais básicos do indivíduo.

Nos dias 16, 17 e 18 de setembro desse ano, acontecerá na Universidade de Brasília o VI Encontro Anual da ANDHEP (Associação Nacional de Direitos Humanos - Pesquisa e Pós-Graduação). O tema desse encontro será "Direitos Humanos, Cidades e Desenvolvimento". A coordenação do evento é responsabilidade da ANDHEP e da UnB, sendo a universidade representada na organização pelo reitor, José Geraldo de Sousa Júnior, e pela Prof.ª Dr.ª Nair Heloisa Bicalho de Sousa, do departamento de Serviço Social. O encontro terá, entre outras atividades, a reunião de alguns Grupos de Trabalho (GTs) que debaterão questões particulares relacionadas a temas abarcados pelo tema do encontro. Gostaríamos de destacar um desses GTs:

o GT 4 – Participação Democrática, Controle Social e Direitos Humanos
Coordenador: Félix Garcia Lopez Jr (DIEST/IPEA)
Debatedora: Jane Beltrão (UFPA/Andhep)

Este GT visa a debater as possibilidades de protagonismo social, por meio de mecanismos de participação e controle, na construção de políticas públicas em nível local, regional e nacional. Três enfoques serão priorizados. Primeiro, o da participação cidadã na gestão pública como um direito humano em si mesmo. Segundo, o dos efeitos dessa participação na melhoria qualitativa das políticas públicas, de um ponto de vista de seu potencial para a realização dos direitos humanos como a presença da cidadania ativa em mecanismos de orçamento participativo ou conselhos podem abrir espaço para demandas de minorias, questões de gênero, criança e adolescente, dentre outras. O último enfoque é o da participação social na construção e na qualificação da própria política de direitos humanos delineada no III Programa Nacional de Direitos Humanos (2009) e no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (2006). (Grifo nosso.)

Vocês se lembram do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, o abjeto PNDH-3, que estabelecia, dentre outras coisas "progressistas", o "controle social" da mídia? Pois bem: o ANDHEP foi uma das primeiras organizações a apoiar integralmente o PNDH-3 através de um manifesto publicado em seu website. Gostaríamos de destacar o seguinte trecho desse manifesto:

A partir das idéias de inclusão de todos, respeito à diversidade, garantia de participação, interdependência e universalidade dos direitos humanos, entende-se que o 3º. Plano oferece condições de ser uma importante diretriz democrática a guiar o país no trilho dos avanços mais notórios alcançados neste âmbito nas democracias mais consolidadas do mundo, bem como em sintonia com as premissas normativas extraídas da ordem internacional. (Grifo nosso.)

"Importante diretriz democrática"? Há controvérsias - e muitas, vale frisar - com relação ao caráter democrático do PNDH-3. Não falaremos sobre isso. Faremos melhor: vamos mostrar qual é a opinião de um dos mais tarimbados juristas brasileiros, reconhecido no mundo inteiro, sobre o PNDH-3. Com a palavra, o Dr. Ives Gandra Martins:


Sobre o real caráter PNDH-3, gostaríamos de destacar a última afirmação dada pelo Dr. Ives Gandra na entrevista: "É um decreto preparatório para um regime ditatorial". Disfarçar mecanismos de ataque a direitos e garantias individuais justamente sob o pretexto de salvaguardar esses direitos e garantias é o que realmente objetiva o PNDH-3. Essa lógica contraditória, que parece contaminar a essência do decreto, é um dos elementos centrais da trama 1984, escrita por George Orwell: é o duplipensar. O duplipensar foi assim definido por Orwell:

Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar.

Cabe, aqui, dar destaque a um outro aspecto de todo o espetáculo ligado ao VI Encontro Anual da ANDHEP. O reitor José Geraldo e a Prof.ª. Dr.ª Nair Bicalho integram o grupo de pesquisa "Direito Achado na Rua". O "Direito Achado na Rua" é um movimento de esquerda criado a partir de uma expressão do jurista Roberto Lyra Filho para definir o Direito proveniente das ações dos movimentos sociais - considerando, como organizações legítimas dentro dos movimentos sociais, grupos como o MST, que se vale de métodos criminosos na defesa de ideais "libertários".

O que podemos apreender disso tudo? A Universidade de Brasília tem sido, sistematicamente, utilizada para fomentar pensamentos, ideias e ações que, de maneira discreta ou escancarada, vão contra os princípios da democracia e do Estado de Direito. Como se pode pretender discutir direitos humanos quando o que se vê é justamente a sublevação dos direitos humanos, especialmente aqueles conhecidos como direitos e garantias individuais? Como se pode dizer que se objetiva construir uma sociedade mais justa e igualitária se a Constituição é rasgada através da defesa dessas causas "progressistas"?

A universidade deve estar a serviço dos valores democráticos, da construção de uma sociedade consciente e justa, onde o desenvolvimento econômico, social e político deve ser indissociável do respeito às leis e dos princípios mais básicos do Estado de Direito. Pretensões autoritárias, (mal-)travestidas ou não de evolução democrática, devem ser duramente combatidas. Só assim se contrói uma sociedade verdadeiramente justa.

Próximo post: Dez princípios conservadores.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A importância da pseudociência na UnB

Você já pensou em fazer uma disciplina que ensina a fazer mapa astral e, ainda por cima, ganhar créditos por isso? E que tal ingressar no mundo misterioso dos astros e dos signos como maneira, por exemplo, de definir o melhor momento para ter um filho, ou procurar emprego, ou até mesmo implementar uma política pública? Ou, então, o que acha de estudar relatórios de incidentes com OVNIs, no melhor estilo Arquivo X? Essa (sur)realidade não está muito distante da UnB dos dias de hoje.

Em nosso último texto, falamos sobre o NESCUBA (Núcleo de Estudos Cubanos), um dos Núcleos Temáticos do CEAM (Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares). Entretanto, o NESCUBA não é a única excentricidade - para não dizer absurdo - dentro da UnB. Há também um Núcleo Temático do CEAM que não trata de coisas propriamente materiais, mas de coisas transcendentais: o Núcleo de Estudos de Fenônemos Paranormais (NEFP). Isso mesmo: fenômenos paranormais. De acordo com o website do CEAM:

O Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais (NEFP) realiza pesquisas em conscienciologia, terapias integrativas, ufologia e astrologia. Para os estudiosos do ramo, entender, analisar e controlar a mente humana e seus diversos relacionamentos com o todo, particularmente com a natureza, é fator crucial para o progresso de outras ciências, como a medicina e as ciências exatas.

O NEFP, coordenado pelo professor Álvaro Luiz Tronconi - que, deve-se observar, possui doutorado pela Universidade de Oxford, Reino Unido -, promove uma série de cursos, palestras, simpósios e pesquisas nessas áreas. Em agosto de 2005, o núcleo foi o responsável pela organização do I Encontro Nacional de Astrologia, que aconteceu na Universidade de Brasília. No campo das pesquisas, a mais recente foi feita em 2009. O objetivo da pesquisa foi averiguar a capacidade de diagnosticar o estado de saúde de pacientes do Hospital Universitário de Brasília (HUB) por parte de pessoas sensitivas. O resultado da pesquisa? Os sensitivos não conseguiam adivinhar as moléstias dos pacientes melhor do que um computador escolhendo doenças ao acaso.

Uma das pessoas que participou dessa pesquisa, e que já ministrou um curso de paranormalidade na UnB (promovido pelo NEFP em 2001), foi a autointitulada vidente Rosa Maria Jaques. Caso tenha a impressão de já ter lido ou ouvido esse nome antes, você não está confuso: Rosa Maria Jaques foi a mulher que resolveu "ajudar" as investigações do assassinato do ex-ministro do TSE José Guilherme Villela, de sua esposa e de sua empregada - o chamado crime da 113 Sul. A tal vidente, juntamente com seu marido (que também participou do curso de 2001), são acusados de atrapalhar as investigações do crime. Curiosamente, o Prof. Dr. Tronconi, de acordo com o jornal Folha de São Paulo, já havia dito diz que "sensitivos poderiam também ajudar a polícia. Suas opiniões não deveriam servir como palavra em tribunais, diz, mas eles deveriam fazer parte das equipes de investigações." O caso da vidente motivou, inclusive, um requerimento do Instituto de Física ao Conselho Universitário (CONSUNI) pedindo a extinção do NEFP tendo por base o argumento de que o núcleo não promove pesquisas científicas, mas práticas classificadas como pseudociência.

Uma reportagem da edição nº 1803/2004 da revista Isto É ajuda a compreender um pouco mais como pensa o coordenador do NEFP:

O pesquisador considera a crença em Deus uma bengala psicológica, mas acredita em cirurgia espiritual. Só que para ele não se trata de um fenômeno religioso. Ele teve essa certeza ao ser curado de uma hérnia-de-disco pela força mental de uma enfermeira. Raios X, feitos antes e depois do episódio, comprovam a cura. Ela se concentrou, colocou a mão sobre sua coluna vertebral e "navegou" mentalmente pelo interior do seu corpo - um fenômeno, segundo o professor, conhecido como projeção heteroscópica. "Se podemos melhorar nossa oratória, também podemos dominar a bioenergia e usá-la para nos teletransportar ou curar doenças", diz. Apesar da resistência de muitos colegas, Tronconi pretende medir a energia emitida pelas mãos e seus efeitos no crescimento de camundongos. (Grifo nosso.)

Será que ainda é preciso dizer que essa situação se configura num dos maiores absurdos que pode haver em uma universidade pública? O NEFP tem base em crenças que forçosamente buscam vínculos com a ciência e que, a bem da verdade, podem ser encaradas como uma violação do princípio de laicidade que orienta o Estado brasileiro. Promover pesquisas nessa linha seria o mesmo que tentar, por exemplo, transformar uma hóstia em carne ou vinho em sangue durante uma missa dentro de um laboratório de pesquisa. O que seria dito se isso acontecesse? Que, logicamente, trata-se de um absurdo que beira o surreal.

Ciência e (o que quer que se aproxime de) religião são conhecimentos complementares. Isso é ponto pacífico. Entretanto, existem lugares próprios para essas duas coisas. Assim como uma sinagoga, ou uma igreja, ou uma mesquita não são os lugares onde se fomenta a pesquisa científica, universidades não devem ser usadas para dar pseudocientificidade a crenças de cunho religioso ou espiritualista. Isso é desvirtuar o papel da universidade, mutilando sua essência, transformando-a em motivo de chacota.

Para finalizar, gostaríamos de citar as palavras que Hélio Schwartsman, articulista do jornal Folha de São Paulo, escreveu em 11 de agosto de 2005 sobre a maluquice representada pelo NEFP:

Não estou, com minhas reprimendas à UnB, me insurgindo contra o princípio da liberdade acadêmica, que reputo fundamental para a pesquisa científica. Mas mesmo este precisa ser utilizado com algum bom senso, ou entramos no reino do vale-tudo. Se o Nefp pode pretender investigar a astrologia e discos voadores, amanhã alguém poderá propor --e conseguir-- que a UnB financie uma expedição científica ao pólo Norte em busca de Papai Noel. Em termos rigorosos ninguém até hoje demonstrou que o bom velhinho não existe.

Próximo post: O espetáculo circense dos Direitos Humanos e o papel da UnB